25 de agosto de 2009

O amor à verdade

No homem há uma liberdade que se vê (fazer o que se quer, ir de um lado para o outro, etc.) e uma que não se vê - a liberdade interior - que deriva do fato de não se ter impedimentos interiores para exercitar a nossa consciência e de atual de acordo com ela.
Os obstáculos interiores são a ignorância e a fraqueza. O que não sabe o que tem de fazer só tem liberdade para errar, mas não para acertar. E aquele que é fraco, deixa que a desordem dos seus sentimentos ou a coação externa lhe arrebate a liberdade.
A ignorância deixa a consciência às escuras: não pode decidir bem porque lhe faltam as bases, porque está deformada ou porque foi pouca formada, fica condicionada por qualquer influencia ou idéia. Também as várias manifestações da fraqueza pressionam ou abafam a voz da consciência, quer por ação das paixões desordenadas, quer por causa da preguiça.
Para alcançar a liberdade interior é preciso vencer a ignorância e as diferentes manifestações de fraqueza. Daí, a importância de ter verdadeiro amor à verdade.
Quem ama a verdade, procura formar a consciência: conhecer os princípios morais, pedir conselho a pessoas retas e com experiência; não considerar humilhante que nos corrijam. De fato, os outros os observam de fora e com mais objetividade do que nós mesmos. Também é preciso tirar experiência dos próprios atos, examinar-nos com freqüência – diariamente – e corrigir os erros. É preciso ser humildes para reconhecer os erros e retificar, mas isso nos dará uma grande sabedoria e capacidade de ajudar os outros também.
Em cada decisão, entra em jogo a consciência que, ou impõe a verdade sobre a conduta ou é desprezada e calada. No primeiro caso, somos nós que atuamos com a nossa liberdade; no segundo é algo que está dentro de nós: os caprichos, a preguiça, o medo ao que dirão.
Se formos fiéis à consciência, crescem as virtudes que, por sua vez, vão dominando as nossas fraquezas e dilata-se a capacidade de atuação da nossa consciência. Por sua vez, esse crescimento das virtudes, ajuda o bom funcionamento da consciência, aumentando a nossa liberdade interior.
Mas quando se atua contra a consciência, a fraqueza acentua-se e perde-se a liberdade interior: os sentimentos deseducam-se e arrasta-nos para os caprichos, ao mesmo tempo em que vamos caindo no hábito do “mais fácil” que fomenta a preguiça. Este cair na incoerência leva a ter cada vez mais fraca a voz da consciência. Por isso é tão importante deter esse processo degenerativo, arrepender-se e voltar a começar todas as vezes que seja necessário. Só quem sabe arrepender-se protege a sua consciência e, portanto, a sua liberdade interior.
Mas a experiência da nossa fraqueza e o reconhecimento de que agimos mal, é algo que humilha.
Quando a fraqueza se une ao orgulho, o engano pode chegar a extremos patológicos: não se conforma com uma modesta justificação, mas incomoda-se com a verdade, com os que lhe dizem a verdade ou com os que a vivem.
O costume de guiar-se sempre pela consciência, chama-se retidão, que se manifesta no amor à verdade e dá uma grande beleza e fortaleza ao caráter.

23 de agosto de 2009

A experiência da fraqueza

“Todas - as morais aceitas entre os seres humanos – estão de acordo em prescrever uma conduta que os seus fies não conseguem praticar. Todos os homens estão condenados por igual, e não por códigos de ética alheios, mas pelos seus próprios códigos” (O problema da dor de C.S. Lewis).
A frase é um dos mistérios mais desconcertantes da psicologia humana: o simples fato de se ter um código moral ou um ideal de vida não é suficiente para vivê-lo.

“Todos sentimos a nossa vida real como uma essencial deformação, maior ou menor, da nossa vida possível” (Goeth por dentro de Ortega Y Gasset).
Nesta frase, temos a experiência clara de nossa liberdade: pensamos, decidimos, movemo-nos, vamos para onde queremos. No entanto, por vezes propomo-nos fazer uma coisa que nos custa e não a fazemos. E não é que tenhamos mudado de opinião, não! Não é que percamos a liberdade, mas é que temos um obscuro não-querer, um querer incompleto, esvaziado da força original. Não é uma ausência de liberdade, é uma experiência livre de um fracasso consentido. Queremos livremente contradizer-nos. É uma ruptura interna, aumenta a nossa incoerência, a tal ponto que, a sua repetição pode privar-nos na pratica da nossa liberdade. É uma realidade com a qual é preciso contar. E não existe outro tratamento senão vencer em cada caso, mantendo essa fraqueza sob controle.

22 de agosto de 2009

Do egoísmo ao sentido do dever

Enquanto que o elemento característico da idade infantil é o seu inevitável egoísmo, o elemento próprio da maturidade é a aparição do sentido do dever. A conduta deixa de se guiar pelos gostos para abrir espaço às exigências que a realidade impõe.
Amadurecer significa que os deveres ocupam um lugar cada vez mais importante e, em sentido contrário, é sinal de imaturidade que se mantenha os egoísmos infantis, que a conduta continue centrada exclusivamente na busca dos bens próprios.
O egoísmo de um adulto é um desajuste da personalidade: o corpo amadureceu, mas o espírito não. A sobrevivência do egoísmo infantil não é fruto de uma opção: o egoísmo sobrevive quando não se ganha o costume de guiar-se pelo sentido do dever.
A maturidade requer uma autêntica conversão intelectual e moral. A conduta deve passar de ser guiada pelos instintos a ser guiada pela razão. Requer a capacidade de pensar as coisas em termos objetivos: pensar no que nos rodeia, sobretudo pensar nos outros.
Aprender a ouvir a voz dos deveres é uma tarefa para toda a vida. O egoísmo não se supera sem esforço e tende a reaparecer continuamente, pois temos uma inclinação permanente a viver centrado no nosso eu.
Uma parte importante da educação moral consiste em ajudar a superar o egoísmo infantil; ensinar a pensar nos outros; ensinar a tratar cada coisa e cada pessoa com o respeito que merecem.
A atitude fundamental de respeito é à base de todos os modos de conduta moral, perante o próximo e perante nós mesmos (segundo Von Hildebrand).

21 de agosto de 2009

A moral como arte

Há uma lei comum a todas as atividades humanas: cada ato consciente do ser humano deixa nele uma marca mais ou menos forte segundo a intensidade do ato e sua repetição – Lei da Ação e Reação.
Se for um erro, deixa uma marca que pode converter-se, pela repetição, num mau costume. Se for um acerto, pode chegar a ser um bom hábito, pela repetição. A moral, a arte dos bons costumes, está em jogo em cada decisão de liberdade. Essas decisões vão tornando o homem cada vez mais ou cada vez menos maduro e livre.
Mas a atuação humana está também condicionada por realidades prévias: pela nossa natureza, peno nosso “modo de ser” herdado, ou marcado pelo ambiente em que nascemos ou vivemos.
Quase toda a nossa vida moral consiste em desenvolver livremente algumas capacidades que encontramos em nós desde que viemos ao mundo.
Estas capacidades têm as suas leis que nós não podemos “inventar”: a liberdade, a amizade, o amor, a felicidade. Por isso a moral não depende do gosto de cada um, não é uma questão de opinião. Só é opinável precisamente na medida em que não sabemos claramente o que é conveniente.
Para nos ajudar a isso, existem modos de nos orientarmos sobre o BOM e o MAU.
Um deles é certa reação de nossa natureza, que reage bem ao que lhe convém e mal ao que não lhe convém. Só que, enquanto que em relação às coisas físicas, por exemplo, o alimento, os erros percebem-se fisicamente e com freqüência logo, os erros em relação ao uso da liberdade percebem-se num certo bem-estar ou mal estar e nem sempre logo.
Existe um outro critério externo importante: as boas ações dos outros são percebidas como belas e desejáveis. Pelo contrário as más ações são percebidas como ignóbeis e feias.
É claro que se pode perder o bom gosto no que pode ser educado. Por isso, a MORAL é como que a estética do espírito: o bom gosto no que se refere ao comportamento humano.

A nossa civilização passa por um momento de crise neste aspecto e, por isso, não sabe EDUCAR convenientemente. O motivo tem algo a ver com o Ter-se perdido as referências cristãs – em Cristo...

19 de agosto de 2009

Singularidade

O homem sempre quis ser reconhecido por aquilo que faz na terra buscando encontrar o significado de sua vida, o motivo para estar aqui, se aprofundar para descobrir quais crenças o faz agir de certos comportamentos e fica a questão: o que tem de importante nisso? A história do homem que busca o seu destino, conhecer a si mesmo.
Agora a questão é outra. Como aquele que faz o estudo ou a pesquisa pode ser ao mesmo tempo o objeto de estudo?
Segundo Cassirer este homem “percebe que o estudo dele na sua origem já é um desafio e que o objeto de estudo está se compondo e decompondo”, ou seja, o próprio homem se compõe e decompõe, tornando-se o “ponto de regularidade”.
Essa “regularidade” se dá segundo Cassirer, pelo que ele pensa, diz, faz e assim tem um resultado da ação traçando um método para se chegar à integridade, à atualização daquilo que está em potencia, à virtude.
Para Mondin, o ponto de partida deste homem é aquele que deseja se comunicar e o faz simbolicamente. Já para Paulo Freire é através da alfabetização que se cria o mundo onde se vive: “é a palavra que ajuda a revelar o mundo”.
Platão afirma que “as massas nunca serão filosóficas”. É válido até hoje e chega-se a conclusão que a visão do mundo que o homem constrói não pode estar separada do “policiamento” do pensamento. Este deve ser refinado e que devemos parar para nos auto-criticar, pois, quem procura uma visão de mundo fundado na filosofia precisa se apoiar na própria razão, ou seja, duvidar de tudo e ter a coragem de pensar racionalmente, colocando em xeque-mate as suas idéias, as suas crenças, as suas convicções, os seus dogmas etc. Se interiorizar para refinar o pensamento.

18 de agosto de 2009

Ajuda

Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Não vai dar mais pra chorar
Nem pra rir
Socorro, alguma alma, mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva
Socorro, alguma rua que me dê sentido
Em qualquer cruzamento
Acostamento
Encruzilhada
Socorro, eu já não sinto nada
Socorro, não estou sentindo nada
Nem medo, nem calor, nem fogo
Nem vontade de chorar
Nem de rir
Socorro, alguma alma, mesmo que penada
Me empreste suas penas
Já não sinto amor, nem dor
Já não sinto nada
Socorro, alguém me dê um coração
Que esse já não bate nem apanha
Por favor, uma emoção pequena
Qualquer coisa
Qualquer coisa que se sinta
Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva
Qualquer coisa que se sinta,
Tem tantos sentimentos, deve ter algum que sirva

(Socorro - Arnaldo Antunes)