23 de dezembro de 2010

O "Vorstellung" de Kant

Quando se estuda ou lê Kant encontra-se em sua pretensão superar o impasse entre o racionalismo e o empirismo, segundo os quais a ênfase do conhecimento era posta pelos filósofos anteriores a ele.
Até Kant, a filosofia definia como conhecimento a priori aquele que partia das causas para os efeitos como o que independe da experiência e o conhecimento a posteriori como aquele que ia dos efeitos as causas, aquele construído com base nos dados fornecidos pela experiência sensível.
A partir destes dados, a priori e a posteriori, tomamos conhecimento sobre seus juízos sintéticos a posteriori, analíticos a priori e sintéticos a priori.
Juízos sintéticos a priori são aqueles que, sem terem derivados da experiência, acrescentam algo à compreensão do sujeito, no sentido de que dizem respeito às condições das possibilidades do conhecimento, à forma desse conhecimento, portanto, não propriamente a seu conteúdo. Não tem o predicado contido no sujeito, não são encontrados por análise.
Os juízos analíticos a posteriori são aqueles cujo atributo pertence necessariamente à essência ou a definição do sujeito. Atribui ao sujeiito um predicado formalmente no referido sujeito, como por exemplo, os corpos são externos.
Os juízos sintético a priori são aqueles em que o predicado está contido no sujeito. Para Kant o importante é descobrir a validade deste objeto e não sua verdade, daí que ele diria ter feito a "Revolução Copernicana".
Assim como Copérnico concedeu o modelo heliocêntrico invertendo o geocentrismo, Kant contruiu uma epistemologia invertendo o olhar sobre a metafísica tradicional e examinando o modo como conhecemos nossas possibilidades e limites.
Kant elabora o criticismo transcendental superando o dogmatismo racionalista e o ceticismo empirista.
A chamada "Revolução Copernicana" de Kant é a troca de posição entre o sujeito e o objeto onde ele coloca o sujeito no centro e o objeto girando em torno desse sujeito e, desta forma, o objeto passa a ser construído pelo sujeito e não mais dado como era anteriormente.
Kant inclusive trabalha com o termo "representação" (Vorstellung) onde o significado é a operação pela qual a mente tem presente em si uma imagem mental, uma ideia ou um conceito correspondendo a um objeto extenso.
Relacionando a representação de Kant aos três tipos de faculdades humanas - sensibilidade, entendimento e razão), temos:
Sensibilidade: sua representação é a intuição que tem o trabalho de levar à mente um objeto sensível;
Entendimento: sua representação é o conceito;
Razão: sua representação é a ideia.
A partir desse ponto, a matemática e a física foram consideradas ciências acabadas, ou seja, ciências completas, puras.
Sendo assim, a razão humana com seus limites faz a metafísica fracassar, mesmo porque para ela, a metafísica não é uma ciência. Não tem um objeto pelo qual se possa fazer experiência.
Fundamenta-se em opiniões e crenças e com isso pretende que a coisa em si seja um fenômeno.
Na filosofia de Kant, o termo fenômeno adquire um sentido particular, por oposição ao númeno.
O númeno designa a coisa em si, tal como existe fora dos quadros do sujeito. Quanto ao fenômeno, designa o objeto de nossa experiência, ou seja, aquilo que aparece nos quadros que lhe conferem as formas a priori da sensibilidade e as leis do entendimento.
O fenômeno nada tem de uma aparição ilusória, mas constitui o fundamento mesmo de todo o nosso conhecimento.
É a distinção entre númeno e fenômeno que permite resolver a antinomia entre determinismo e liberdade.
O homem enquanto fenômeno é determinado no tempo pelas leis da causalidade e enquanto númeno permanece livre, não é determinado por leis.
E para finalizar, Kant vem com o criticismo e diz que os seres humanos possuem uma razão pura, ou seja, aquela que não tomou contato com o mundo subjetivo, com as sensações, com a experiência ainda.
Há nessa razão pura as categorias e formas dentro da nossa mente onde os sentidos nos permitem ter contato com o mundo subjetivo.
Os sentidos atuam sobre os fenômenos onde consigo, por exemplo, apreender a cor da caneta e sua beleza e, uma vez apreendida, as sensações são jogadas para dentro de nossa mente e organizadas pelas categorias e formas.
Ele ainda diz que o conhecimento é uma interação entre o sujeito e o objeto, porque parte de um determinado dado absorvido por um objeto para se criar um juízo sintético a priori.
O conhecimento, do modo de pensar kantiano, é construído, tendo um conteúdo e uma forma, onde o objeto a posteriori e um sujeito a priori, sendo universais - com um adjetivo exprimindo a ideia de extensão completa de um conjunto - e necessários - aquilo que não depende de nenhuma outra causa ou condição para existir.

17 de dezembro de 2010

Trecho do aforismo 354 - A gaia ciência - Nietzsche

Do "gênio da espécie". — O problema da consciência (ou, mais precisamente, do tornar-se consciente) só nos aparece quando começamos a entender em que medida poderíamos passar sem ela: e agora a fisiologia e o estudo dos animais nos colocam neste começo de entendimento (...). Pois nós poderíamos pensar, sentir, querer, recordar, poderíamos igualmente "agir" em todo sentido da palavra e, não obstante, nada disso precisaria nos "entrar na consciência" (como se diz figuradamente). A vida inteira seria possível sem que, por assim dizer, ela se olhasse no espelho: tal como, de fato, ainda hoje a parte preponderante da vida nos ocorre sem esse espelhamento — também da nossa vida pensante, sensível e querente, por mais ofensivo que isto soe para um filósofo mais velho. Para que então consciência, quando no essencial é supérflua? Bem, se querem dar ouvidos à minha resposta a essa pergunta e à sua conjectura talvez extravagante, parece-me que a sutileza e a força da consciência estão sempre relacionadas à capacidade de comunicação de uma pessoa (ou animal), e a capacidade de comunicação, por sua vez, à necessidade de comunicação: mas não, entenda-se, que precisamente o indivíduo mesmo, que é mestre justamente em comunicar e tornar compreensíveis suas necessidades, também seja aquele que em suas necessidades mais tivesse de recorrer aos outros. Parece-me que é assim no tocante a raças e correntes de gerações: onde a necessidade, a indigência, por muito tempo obrigou os homens a se comunicarem, a compreenderem uns aos outros de forma rápida e sutil, há enfim um excesso dessa virtude e arte da comunicação, como uma fortuna que gradualmente foi juntada e espera um herdeiro que prodigamente a esbanje (— os chamados artistas são esses herdeiros, assim como os oradores, pregadores, escritores, todos eles pessoas que sempre vêm no final de uma longa cadeia, "frutos tardios“, na melhor acepção do termo, e, como foi dito, por natureza esbanjadores). Supondo que esta observação seja correta, posso apresentar a conjectura de que a consciência desenvolveu-se apenas sob a pressão da necessidade de comunicação — de que desde o início foi necessária e útil apenas entre uma pessoa e outra (entre a que comanda e a que obedece, em especial), e também se desenvolveu apenas em proporção ao grau dessa utilidade. Consciência é, na realidade, apenas uma rede de ligação entre as pessoas — apenas como tal ela teve que se desenvolver: um ser solitário e predatório não necessitaria dela.

O fato de nossas ações, pensamentos, sentimentos, mesmo movimentos nos chegarem à consciência — ao menos parte deles —, é conseqüência de uma terrível obrigação que por longuíssimo tempo governou o ser humano: ele precisava, sendo o animal mais ameaçado, de ajuda, proteção, precisava de seus iguais, tinha de saber exprimir seu apuro e fazer-se compreensível — e para isso tudo ele necessitava antes de "consciência" isto é, "saber" o que lhe faltava, "saber" como se sentia, "saber" o que pensava. Pois, dizendo-o mais uma vez: o ser humano, como toda criatura viva, pensa continuamente, mas não o sabe; o pensar que se torna consciente é apenas a parte menor, a mais superficial, a pior, digamos: — pois apenas esse pensar consciente ocorre em palavras, ou seja, em signos de comunicação, com o que se revela a origem da própria consciência. Em suma, o desenvolvimento da linguagem e o desenvolvimento da consciência (não da razão, mas apenas do tomar-consciência-de-si da razão) andam lado a lado. Acrescentese que não só a linguagem serve de ponte entre um ser humano e outro, mas também o olhar, o toque, o gesto; o tomar-consciência das impressões de nossos sentidos em nós, a capacidade de fixá-las e como que situá-las fora de nós, cresceu na medida em que aumentou a necessidade de transmiti-las a outros por meio de signos. O homem inventor de signos é, ao mesmo tempo, o homem cada vez mais consciente de si; apenas como animal social o homem aprendeu a tomar consciência de si — ele o faz ainda, ele o faz cada vez mais.

Adaptado de NIETZSCHE, F. W. A gaia ciência. São Paulo, Companhia das Letras, 2001.

15 de dezembro de 2010

A origem do Universo

Até hoje em dia há um questionamento sobre o surgimento do Universo que nos deixa um tanto quanto intrigados e porque não dizer que nos deixa curioso quanto às verdades e inverdades.
Não só cientistas mas vários filósofos de toda a parte do mundo questionam como o Universo havia surgido e de qual forma.
A chamada Teoria do Big Bang, por volta do século XX, nos trouxe a hipótese do Universo ter surgido de um "estouro" repentino sendo uma fase densa e quente ao qual passou.
Vários cientistas e filósofos contribuiram na questão da formação do Universo como por exemplo Einstein, Sitter, Friedmann, Hubble, Lamaitre, Laplace, George Gamow, Herman Bondi...
O Universo continua em expansão e em uma velocidade incrivelmente rápida, o que significa que as galáxias estão correndo umas das outras.
Além desta informação, pude notar que o Universo tem uma força gravitacional e sendo assim, possui forças antagônicas formado por um átomo primordial, infinitamente pequeno e de uma inteligência aprimorada - é o que nos afirma Lamaitre.
Esta força gravitacional foi o que provocou a condensação de massas imensas, as quais foram produzidas reações termonucleares onde se formam as estrelas e as galáxias que temos hoje.
Finalmente dessas reações nucleares é que átomos mais pesados se disseminaram no espaço formando alguns planetas, como o "nosso".

3 de dezembro de 2010

Mitos: do Sol, da Caverna e da Linha (Platão)

Algumas pessoas só conhecem o Mito da Caverna de Platão (o mais famoso e comentado em disciplinas de Filosofia) que consta no Livro VII da República.
Abaixo a explanação e uma pequena explicação dos demais mitos ricos em sabedoria também.

MITO DO SOL
Platão faz uma analogia do Sol com o Bem onde o Sol reprsenta o sensível no que concerne à visão e ao visível e o Bem ele relaciona ao inteligível e ao intelecto.
Quando os olhos veem na escuridão da noite, veem pouco ou nada e quando olham para a luz do Sol, veem com clareza e a visão assume o seu papel adequado.
Assim, acontece com a alma quando se mistura às trevas - o que nasce e morre - só é capaz de opinar e conjecturar, parece não ter intelecto, enquanto que quando contempla o que a verdade é o Se ilumina, ou seja, o puro inteligível assume a estrutura e papel, pois o Sol não só dá às coisas a capacidade de serem vistas, mas causa geração, crescimento nutrição.
Analogicamente, o Bem, não só causa a cognoscibilidade das coisas, mas causa-lhes também o Ser e a essencia.
Conquanto o Bem, não é a essência, está para além dela pela sua "dignidade e poder", a ideia do Bem infere às coisas conhecidas verdades e a que as conhece a "faculdade de conhecer a verdade".
E como a visão e o visto não são o Sol, mas afins do Sol, assim também o conhecimento e a verdade não são o Bem, são afins ao Bem.

MITO DA CAVERNA
Platão descreve a ascensão do homem (corpo e alma) ao conhecimento, a verdade através da capacidade de acessar coisas sensíveis e inteligíveis.
Na caverna, não viam mais que sombras (aparências) e com a saída, far-se-á a distinção entre aparência e realidade.
Os que permanecem na caverna, nao tem acesso à Paidéia (educação), ao conhecimento, à alétheia (verdade) e a escensão é gradual, contempla o fogo, os objetos, as imagens dos homens e objetos, refletidas na água, o céu, a luz das estrelas, a lua e, por fim, o Sol.
Faz-se aí a ruptura, lança-se o olhar sobre si, sobre o próprio espírito, conversão daquilo que era tateável para aquilo que é verdadeiro.
Platão descreve a subida da alma ao lugar inteligível (para o espírito a ideia do Bem é inteligível e inteligente) recorrendo novamente à imagem do Sol para ilustrar a "visão iluminada".
A visão é chamada a olhar o que está desvelado (alétheia), a forma inteligível (eidos), ou seja, o que está claro, evidente, a Ideia, a inteligibilidade, o inteligível.
O caminho da dialética ascendente é o mesmo da dialética descendente a partir de uma perspectiva ontológica onde os "dois mundos" formam uma realidade única: um conduz ao outro; relação entre o devir e a Ideia.

MITO DA LINHA
Platão descreve o conhecimento humano e as partes em que ele se divide recorrendo à imagem de uma reta dividida em dois e cada uma das partes novamente dividida em duas.
A primeira parte representa o conhecimento sensível. A segunda parte o conhecimento inteligível.
A cada objeto de conhecimento corresponde uma operação da alma: imaginação, suposição (eikasia); crença, fé opinativa (pistis, doxa), mais que suposição que tenho as coisas; operação realizada pelo raciocínio, poder do discurso, argumentação (dianoia); inteligência (noesis), passagem da alma de ideias para ideias, ato intelectual do conhecimento ou intuição intelectiva.
Ao propor a divisão da linha, Platão não divide necessariamente o mundo em dois (sensível e inteligível), mas apenas um mundo, proporcionalmente, analogicamente e geometricamente dividido em lugares e sob a égide do Bem (República), do Um (Parmênides), do Um-Bem (Doutrinas não-escritas), situado além da ousía, da realidade.
A cada um dos quatro segmentos, vão responder quatro atividades da alma.
Platão pontua que através da dialética atingir-se-ia o conhecimento do Ser e do inteligível, pois a ciência leva a hipóteses, tendo-se em vista que estudam pelo pensamento e não pelos sentidos. Desta forma, sem "subir até o princípio", porém, a partir de hipóteses, não se tem a inteligência, tem-se o entendimento.
O entendimento, segundo ele, é deste modo o intermediário entre a opinião e a inteligência e, sustenta ainda que quem não é capaz de definir a essência do Bem, abstraindo de todas as outras coisas, depois de tê-las percorrido, não conhece o verdaddeiro Bem.



25 de novembro de 2010

A relação entre o "ser-para-a-morte" de Heidegger e a existência autêntica

A existência autêntica fundamenta a consciência do homem perante sua finitude, ou seja, a percepção de que sua existência está condicionada à temporalidade.
Através da busca de si mesmo, o "ser-aí" (Da-sein; homem) faz uma reviravolta, o que lhe proporciona uma existência autêntica. Ao contrário, observamos que em uma existência inautêntica o homem procura "sossegar-se", imerso no anonimato.
Embora o "se-aí" exista e tenha essa consciência, ele é livre, podendo optar por uma existência autêntica ou inautêntica.

16 de novembro de 2010

Relação entre o filme Thelma e Louise de Ridley Scott e a questão da liberdade em Sartre


No filme “Thelma e Louise” há vários fragmentos que se relacionam com a filosofia de Sartre e a questão da liberdade, o determinismo, a má fé, os obstáculos, os valores, porém, o foco deste trabalho será apenas na relação entre a liberdade sartreana.
O impulso das personagens para um final de semana de aventuras é única e exclusivamente a escolha de vivenciar momentos através de outra perspectiva.
A condição do agir é a liberdade e Sartre fixa a liberdade na essência do homem.
Quem nega a liberdade afirma que o homem é determinado por sua natureza, por sua natureza concreta, ou seja, que este homem a conceba como sua estrutura psíquica, como o inconsciente freudiano, quer como o homem dominado pela sociedade em que vive, pela estrutura econômica de tal sociedade ou como qualquer outra coisa.
A frustração e o tédio do casamento, relacionamentos conturbados e uma vida vazia é apenas um enredo dentro da vida daquelas mulheres que, dentro de suas limitações, procuram uma solução alternativa para a superação de seus “fantasmas”.
O cansaço torna-se um motivo para que elas abandonem as atividades costumeiras, sendo mais importante o conforto do que o empenho em levar a termo uma ação iniciada.
Acabam assim, contribuindo para que um obstáculo se torne intransponível dependendo do fim que se propõem e do valor que atribuem a esse fim.
Quando Sartre nos fala sobre significações, o homem pode transformar alguns obstáculos em superações, mas, além disso, o mais importante talvez seja um projeto de vida construído com os alicerces de nossas melhores escolhas.
Até aqueles que possam admitir o determinismo, devem admitir que exista uma impressão (uma ilusão segundo Sartre) de escolher, isto é, de decidir com base em determinados motivos e que são os motivos que nos determinam a querer. Os motivos são em última analise as coisas conhecidas que nos atraem de formas variadas.
Estamos lançados em um mundo incerto e, como estamos condenados à liberdade, esta ou é nossa melhor aliada ou pior dos inimigos.
O homem é um ser ontologicamente livre e a liberdade é necessária porque ele está condenado a ela. Somos tão livres que não podemos deixar um minuto sequer de escolher. A vida é sempre uma escolha.
Por mais que o filme dê uma sugestão de uma virada radical da rotina, intimamente ele fala de construção de vida e de ideias de felicidade, que dentro de uma liberdade intrínseca humana, por vezes não conseguimos estabelecer o melhor direcionamento e o melhor reconhecimento de nossas fraquezas.

1 de novembro de 2010

As paixões da alma por Descartes


O que os antigos ensinaram a respeito das paixões é tão pouco e, na maior parte tão crível, que não se pode alimentar nenhuma esperança de aproximar-se da verdade.
Para iniciar ao tema Descartes procura escrevê-lo como se em momento algum tivesse sido tocado por tal.
Ele considera que tudo o que se faz ou que acontece de novo é geralmente chamado pelos filósofos de paixão em relação ao sujeito a quem acontece.
Naquilo que na alma é uma paixão, no corpo é uma ação, desta forma, a melhor forma de se chegar ao conhecimento é examinar a diferença que há entre a alma e o corpo e, assim, lhes atribuir cada uma das funções existentes em nós.
Será simples essa distinção se for levado em conta que tudo aquilo que experimentamos existir em nós e que vemos existir também nos corpos inteiramente inanimados só devem ser atribuídos a nosso corpo. E, de modo contrário, tudo aquilo que existe em nós e que não concebemos de alguma maneira que possa pertencer a um corpo, deve ser atribuído à alma.
Pelo fato de não concebermos que o corpo pense de alguma forma, temos razão em acreditar que todos os tipos de pensamento existentes em nós pertençam à alma. E, desde que não duvidemos que corpos inanimados possam mover-se de diversas forças e que possuem tanto ou mais calor que nós, devemos crer que todo o calor e todos os movimentos, quando não dependentes do pensamento, pertencem ao corpo.
Ao ver que todos os corpos mortos são privados de calor e de movimentos Descartes chega à conclusão de que a ausência da alma é que fazia cessar esses movimentos e calor. Deste modo, ele chega a pensar que nosso calor natural e todos os movimentos de nossos corpos dependem da alma, quando se deveria pensar ao contrário, que a alma só se ausenta do corpo quando se morre. Isto porque esse calor cessa e os órgãos que servem para mover o corpo se corrompem.
Devemos considerar que a morte nunca ocorre por culpa da alma, mas apenas porque algumas das principais partes do corpo se deterioraram.

29 de outubro de 2010

Espinosa: oposição entre bem comum e verdadeiro bem


“Decidi enfim inquirir...”, com este pensamento inicial Espinosa abre seu discurso no intuito de pesquisar se existe realmente uma diferença ou oposição entre bem comum e verdadeiro bem, pois, se decidiu enfim é porque antes hesitou, comparou, analisou cartesianamente.
Para ele o objetivo desta busca é a felicidade, típica da filosofia dos antigos e que retorna na filosofia moderna. Sua hesitação é saber se realmente existe uma felicidade permanente e se vale a pena buscá-la.
Todo ser busca um bem porque dá uma determinada felicidade, porém, estes bens são apenas as aparências da felicidade e não a felicidade plena, permanente, eterna.
Mas o que é o bem comum? Existe um bem comum? Se existe em que consiste?
Espinosa diz que existem bens comuns e que distraem a nossa mente, classificando-os: prazer (físico), riqueza (material – dinheiro) e honras (fama, reconhecimento público).
Os bens comuns que distraem a mente são negativos. Portanto uma mente distraída perde suas funções deixando uma incerteza da verdade ou do verdadeiro: “Uma mente que se distrai, não pensa”.
Os estágios dessa distração são categorizados no prazer por repouso, perturbação, estupidez; na riqueza por esperança, inquietude; e, na honra por elevação, submissão.
Se ficarmos distraídos com os bens comuns não pensaremos nos verdadeiros bens.
No olhar de Espinosa cada escolha é uma renúncia de algo e a hesitação concentra-se em que toda comparação tem seus riscos.
Estes bens comuns são certos no presente e incertos no futuro, ou seja, são males certos (considerados por ele como exemplo o letígio, a tristeza, a inveja e o ódio) e não é isso que Espinosa busca. Ele busca algo novo que tenha uma continuidade e uma estabilidade: bens incertos no presente e certos no futuro – o verdadeiro bem.
Como abandonar os bens comuns para a busca do verdadeiro?
Abandonando a vida ordinária, repetitiva, ordenada e que distrai a mente.
Com isso ele trava uma “luta” entre os bens comuns e o verdadeiro bem, tornando os bens comuns uma coisa secundária; deixar de pensar no primeiro e colocar-se inteiramente no segundo. O foco agora é o verdadeiro bem, pois, se penso 24 horas somente no verdadeiro bem não tenho tempo de pensar nos bens comuns.
Deixo claro que não é uma renuncia total aos bens comuns mas uma “luta” contra a distração e ilusão que estes provocam no ser, atrapalhando o pensamento do que é o verdadeiro bem: deve-se ter um pensamento contínuo mas não só o pensamento. Pensar nele não é imaginação dele – a imaginação engana – pensar nele é ter a consciência da busca contínua o dia todo.
Mas o que é o verdadeiro bem e porque pode ser eterno?
Espinosa diz que o verdadeiro bem é a união com a natureza e o seu conhecimento, aquilo que constitui o Grande Todo, um acúmulo no processo de aperfeiçoamento.
A perfeição eu só descubro depois de um estudo minucioso do que governa na natureza com a verificação e a possível comprovação.
Precisamos do mundo externo para isso.
O verdadeiro bem é a própria busca pelo conhecimento e o aperfeiçoamento por essa busca constante.
Deixar de lado os bens comuns e, consequentemente, não fazer a mente se distrair. Deixar melhor a cada dia com o permanente, eterno e contínuo.
É o que remete a um conhecimento alhures, ou seja, nós só iremos compreender no futuro ou quando dessa busca.
“Buscar um verdadeiro bem significa supor que os outros não o são verdadeiro.”

Em suma, para Espinosa os bens comuns (prazeres, honras e riquezas) distraem a mente e não deixa a gente se preocupar, bvuscar, pensar 100% no verdadeiro bem que é o conhecimento unificado que a mente tem com a Natureza.
Ele diz que “...tudo que pode ser um meio para alcançar uma perfeição é um bem verdadeiro” e que perfeição “...é uma natureza humana mais forte que a natural”, ou seja, enquanto os bens comuns são certos no presente e incertos no futuro, seu inverso é o verdadeiro bem: bens incertos no presente mas certos no futuro.
“O Tratado da Emenda do Intelecto” é pura análise da mente humana por partes, ou seja,  como racionalista que é, ele usa o método cartesiano para chegar em conclusões sob o verdadeiro bem.

26 de outubro de 2010

O "Da-sein" heideggeriano


Para Heidegger, o pensar é um re-pensar. Pensar é re-pensar a sua origem. Re-pensar a história de uma origem que acabou. 
Com a origem da metafísica (momento privilegiado no qual Platão e Aristóteles colocaram as bases no que íamos conhecer como pensamento ocidental) é as condições adotadas por Platão e Aristóteles nortearam o percurso do pensamento após eles.
A metafísica é justamente a história do esquecimento desses pensamentos. São as noções que se movem no esquecimento como questões políticas, sociais, culturais etc.
Fazer reflexão sobre a metafísica para extrair dela os pressupostos jamais questionados é o que propóem-nos Heidegger que quer re-pensar as origens.
Para caminhar no questionamento radical da metafísica, precisamos de um fio condutor. Um horizonte de interpretação a partir do qual abre um espaço para criticar a metafísica.
Heidegger quer desconstruir a metafísica, pois só se desconstrói o que se dá importância. Desconstrói porque esgotou tudo que se tinha dela.
Desconstruir a metafísica é uma tarefa para se fazer com amor. Levando-a a sério vejo/encontro/desvelo seu ponto de partida escondido: Deus, Verdade, Homem (que são as principais questões tratadas por esta parte da filosofia, a metafísica).
O horizonte de interpretação não ocorre sem levar em consideração as facticidades (fatos).
Condições de facticidades são as condições que a coisa se dá. São sempre condições nas quais quem quer questionar a metafísica está.
Explicitar o horizonte de interpretação para se questionar a metafísica.

Qual seria então este horizonte de interpretação?
A unicidade e a multiplicidade do “ser”.
Aristóteles na Metafísica diz estudar o “ser” enquanto “ser”, entender o “ser” enquanto “ser”.

O Ente são todas as “coisas” que a filosofia se utiliza (homem, sapato, janela, ruído do transito, sonho...)
Sendo assim, todo ente “é”.
Os entes são múltiplos. O ser é único. O que tem em comum é que ente e ser “são”.

Qual o sentido de dizer que há infinitos entes e ao mesmo tempo igualmente são? Qual o sentido de dizer que o ente é?
A metafísica fala do ser, mas quando trabalha com o ser não fala.
“Conhecer [aquilo que é] enquanto [é].” Aristóteles
Aquilo que é, é um ente e o  que é dizer o que algo é?
Dizer o que algo é, é definir. Tomamos como exemplo: O homem é animal racional.

O ser é...
Quando se afirma “o ser é” já usamos o verbo SER que retrata o ser como indefinível.
Quando se tenta dizer o que o ser é, tornamo-lo um ente.

Para entender o sentido do ser, preciso passar pelo ente. Para chegar ao ser, tenho que escolher um ente privilegiado e qual seria este ente privilegiado?
Heidegger nos diz que é o HOMEM, mas que ele vai chamar de Da-sein ou "ser-aí" porque o HOMEM está contaminado demais pela metafísica.

12 de outubro de 2010

O mito da caverna

Quem diria que viveríamos o mesmo que Platão nos descreve no livro VII da República?
Mas aqui a estória é um pouco diferente: 33 mineiros foram resgatados de uma mina no Chile, após passarem aproximadamente 60 e poucos dias soterrados.
O mito da caverna ou alegoria da caverna que nos descreve Platão (logo abaixo na íntegra) é a mais fantástica metáfora filosófica.
O que impressiona e nos questiona é: Os mineiros sairão com as mesmas impressões de quando entraram na mina? Terão a mesma consciência de mundo do que quando desceram lá?  Têm noção do que se passou aqui fora?
Tirem suas considerações após a leitura do texto.



SÓCRATES – Figura-te agora o estado da natureza humana, em relação à ciência e à
ignorância, sob a forma alegórica que passo a fazer. Imagina os homens encerrados em
morada subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda extensão. Aí, desde a
infância, têm os homens o pescoço e as pernas presos de modo que permanecem imóveis e
só vêem os objetos que lhes estão diante. Presos pelas cadeias, não podem voltar o rosto.
Atrás deles, a certa distância e altura, um fogo cuja luz os alumia; entre o fogo e os cativos
imagina um caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido com os
tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os espectadores para ocultar-lhes as molas dos
bonecos maravilhosos que lhes exibem.
GLAUCO - Imagino tudo isso.
SÓCRATES - Supõe ainda homens que passam ao longo deste muro, com figuras e objetos
que se
elevam acima dele, figuras de homens e animais de toda a espécie, talhados em pedra ou
madeira. Entre os que carregam tais objetos, uns se entretêm em conversa, outros guardam
em silêncio.
GLAUCO - Similar quadro e não menos singulares cativos!
SÓCRATES - Pois são nossa imagem perfeita. Mas, dize-me: assim colocados, poderão ver
de si mesmos e de seus companheiros algo mais que as sombras projetadas, à claridade do
fogo, na parede que lhes fica fronteira?
GLAUCO - Não, uma vez que são forçados a ter imóveis a cabeça durante toda a vida.
SÓCRATES - E dos objetos que lhes ficam por detrás, poderão ver outra coisa que não as
sombras?
GLAUCO - Não.
SÓCRATES - Ora, supondo-se que pudessem conversar, não te parece que, ao falar das
sombras que vêem, lhes dariam os nomes que elas representam?
GLAUCO - Sem dúvida.
SÓRATES - E, se, no fundo da caverna, um eco lhes repetisse as palavras dos que passam,
não julgariam certo que os sons fossem articulados pelas sombras dos objetos?
GLAUCO - Claro que sim.
SÓCRATES - Em suma, não creriam que houvesse nada de real e verdadeiro fora das
figuras que desfilaram.
GLAUCO - Necessariamente.
SÓCRATES - Vejamos agora o que aconteceria, se se livrassem a um tempo das cadeias e
do erro em que laboravam. Imaginemos um destes cativos desatado, obrigado a levantar-se
de repente, a volver a cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia fazer
tudo isso sem grande pena; a luz, sobre ser-lhe dolorosa, o deslumbraria, impedindo-lhe de
discernir os objetos cuja sombra antes via.
Que te parece agora que ele responderia a quem lhe dissesse que até então só havia visto
fantasmas, porém que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, via
com mais perfeição? Supõe agora que, apontando-lhe alguém as figuras que lhe desfilavam
ante os olhos, o obrigasse a dizer o
que eram. Não te parece que, na sua grande confusão, se persuadiria de que o que antes via
era mais real e verdadeiro que os objetos ora contemplados?
GLAUCO - Sem dúvida nenhuma.
SÓCRATES - Obrigado a fitar o fogo, não desviaria os olhos doloridos para as sombras
que poderia ver sem dor? Não as consideraria realmente mais visíveis que os objetos ora
mostrados?
GLAUCO - Certamente.
SÓCRATES - Se o tirassem depois dali, fazendo-o subir pelo caminho áspero e escarpado,
para só o liberar quando estivesse lá fora, à plena luz do sol, não é de crer que daria gritos
lamentosos e brados de cólera? Chegando à luz do dia, olhos deslumbrados pelo esplendor
ambiente, ser-lhe ia possível discernir os objetos que o comum dos homens tem por serem
reais?
GLAUCO - A princípio nada veria.
SÓCRATES - Precisaria de algum tempo para se afazer à claridade da região superior.
Primeiramente, só discerniria bem as sombras, depois, as imagens dos homens e outros
seres refletidos nas águas; finalmente erguendo os olhos para a lua e as estrelas,
contemplaria mais facilmente os astros da noite que o pleno resplendor do dia.
GLAUCO - Não há dúvida.
SÓCRATES - Mas, ao cabo de tudo, estaria, decerto, em estado de ver o próprio sol,
primeiro refletido na água e nos outros objetos, depois visto em si mesmo e no seu próprio
lugar, tal qual é.
GLAUCO - Fora de dúvida.
SÓCRATES - Refletindo depois sobre a natureza deste astro, compreenderia que é o que
produz as estações e o ano, o que tudo governa no mundo visível e, de certo modo, a causa
de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.
GLAUCO - É claro que gradualmente chegaria a todas essas conclusões.
SÓCRATES - Recordando-se então de sua primeira morada, de seus companheiros de
escravidão e da idéia que lá se tinha da sabedoria, não se daria os parabéns pela mudança
sofrida, lamentando ao mesmo tempo a sorte dos que lá ficaram?
GLAUCO - Evidentemente.
SÓCRATES - Se na caverna houvesse elogios, honras e recompensas para quem melhor e
mais prontamente distinguisse a sombra dos objetos, que se recordasse com mais precisão
dos que precediam, seguiam ou marchavam juntos, sendo, por isso mesmo, o mais hábil em
lhes predizer a aparição, cuidas que o homem de que falamos tivesse inveja dos que no
cativeiro eram os mais poderosos e honrados? Não preferiria mil vezes, como o herói de
Homero, levar a vida de um pobre lavrador e sofrer tudo no mundo a voltar às primeiras
ilusões e viver a vida que antes vivia?
GLAUCO - Não há dúvida de que suportaria toda a espécie de sofrimentos de preferência a
viver da maneira antiga.
SÓCRATES - Atenção ainda para este ponto. Supõe que nosso homem volte ainda para a
caverna e vá assentar-se em seu primitivo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz à
obscuridade, não lhe ficariam os olhos como submersos em trevas?
GLAUCO - Certamente.
SÓCRATES - Se, enquanto tivesse a vista confusa -- porque bastante tempo se passaria
antes que os olhos se afizessem de novo à obscuridade -- tivesse ele de dar opinião sobre as
sombras e a este respeito entrasse em discussão com os companheiros ainda presos em
cadeias, não é certo que os faria rir? Não lhe diriam que, por ter subido à região superior,
cegara, que não valera a pena o esforço, e que assim, se alguém quisesse fazer com eles o
mesmo e dar-lhes a liberdade, mereceria ser agarrado e morto?
GLAUCO - Por certo que o fariam.
SÓCRATES - Pois agora, meu caro GLAUCO, é só aplicar com toda a exatidão esta
imagem da caverna a tudo o que antes havíamos dito. O antro subterrâneo é o mundo
visível. O fogo que o ilumina é a luz do sol. O cativo que sobe à região superior e a
contempla é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes, já que
o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só Deus sabe se é
verdadeiro. Quanto à mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nos extremos limites do mundo
inteligível está a idéia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que,
conhecida, se impõe à razão como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da
luz e do sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e
sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos
negócios particulares e públicos.


(Extraído de "A República" de Platão . 6° ed. Ed. Atena, 1956, p. 287-291)

8 de outubro de 2010

É difícil viver com as pessoas porque calar é muito difícil

O título do post é uma frase do filósofo Friedrich Nietzsche e que dispensa comentários sobre o texto abaixo transcrito.
Maria Rita Kehl era, eu disse era, colunista do Estadão mas foi demitida 4 dias após publicar o texto abaixo.

 

Trechos de artigo da psicanalista Maria Rita Kehl

O texto "Dois pesos...", da psicanalista Maria Rita Kehl, publicado no Estado de S. Paulo no último sábado (2), um dia antes das eleições, elogia a tomada de posição eleitoral do jornal - de apoio ao candidato José Serra, do PSDB - e critica as correntes de mensagens na internet que tentam desqualificar o voto dos mais pobres, beneficiados pelas políticas sociais do governo nos últimos anos.
Maria Rita Kehl ressalta o salto de qualidade de vida que as classes D e E tiveram nos últimos anos. "Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente", conclui a autora, depois de afirmar:
"Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola".
A psicanalista comenta mensagens que recebeu em sua caixa-postal relatando situações em que trabalhadores de renda baixa estariam supostamente recusando ofertas de trabalho no Ceará e no Piauí para continuar recebendo os benefícios do governo.
"Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria?", pergunta ela. "Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo".
Maria Rita Kehl afirma que o Brasil mudou para melhor, "ao contrário do que pensam os indignados da internet". E prossegue: "Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200?"
O artigo critica ainda os "cidadãos de classe A" que desqualificam a seriedade do voto de quem está saído da miséria: "Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos", conclui a autora.


Ética? Onde?
Liberdade de expressão? Democracia? Pra quê?


4 de outubro de 2010

Michel Foucault: O corpo, lugar de utopias

Abaixo uma parte da conferência de Foucault entitulada Le corps, lieu d'utopies de 1966.

Basta eu acordar, diz Foucault, que não posso escapar deste lugar, o meu corpo. Posso me mexer, andar por aí, mas não posso me deslocar sem ele. Posso ir até o fim do mundo, posso me encolher debaixo das cobertas, mas o corpo sempre estará onde eu estou. Ele está aqui, irreparavelmente: não está nunca em outro lugar. Meu corpo é o contrário de uma utopia. Todos os dias, continua Foucault, eu me vejo no espelho: rosto magro, costas curvadas, olhos míopes, nenhum cabelo mais... Verdadeiramente, nada bonito. Meu corpo é uma jaula desagradável. É através de suas grades que eu vou falar, olhar, ser visto. É o lugar a que estou condenado sem recurso.

Extraído do site: http://www.oestrangeiro.net

29 de setembro de 2010

O que é dizer o que algo é?

Para esclarecer um pouco o questionamento do post acima, devemos nos remeter ao pensamento de Heidegger (1889-1976).

Para Heidegger o pensar é um re-pensar, ou seja, é aquilo que é sempre pensado pela filosofia em toda sua história.
É preciso re-pensar a história de uma origem que acabou, pois a origem da metafísica foi privilegiada por Platão e Aristóteles onde colocou-se as bases do conhecer no pensamento ocidental.
Tais concepções adotadas por Platão e Aristóteles nortearam o percurso do pensamento após ambos.
Metafísica, então, é justamente a história do esquecimento desses pensamentos. Noções que se movem no esquecimento de questões políticas, sociais, educacionais etc.
Daí re-pensar as origens e com isso desconstruir a metafísica porque esgotou tudo que se tinha nela ou dela.
Só se desconstrói o que se dá importância! E desconstruir a metafísica é uma tarefa que devemos fazer com amor. Levando-a a sério desvelo seu ponto de partida escondido: Deus, verdade, homem.
Estas três questões são as mais questionadas metafisicamente. Saber o que é Deus, como chegar à verdade e o que é o homem.
É preciso então um horizonte de interpretação a partir do qual abre-se um espaço para criticar a metafísica.
Heidegger faz isso, mas não critica para acabar com a metafísica ou julgá-la desnecessária, muito pelo contrário.
Vocês devem estar se perguntado: o que tem a ver tudo isso com o questionamento inicial? Explico.
Aristóteles em sua obra Metafísica nos diz que devemos estudar o "ser" enquanto "ser", entender o "ser" enquanto "ser".
Ente são todas as coisas que a filosofia se utiliza como por exemplo, homem, sapato, janela, sonho...
Todo ente "é". Agora, os entes são múltiplos. O "ser" é unico.
O que temos em comum aqui é que ente e ser, são.
Então qual o sentido de dizer que há infinitos entes e ao mesmo tempo igualmente são? Qual o sentido de dizer que o ente é? Qual o sentido?
Voltando a Aristóteles, ele nos afirma que "conhecer [aquilo que é] enquanto [é]" é o que queremos.
Sendo assim, dizer o que algo é, é definir. Exemplo: O homem é animal racional.
Quando afirmamos "o ser é" já usamos o verbo [ser] que relata o ser como indefinível.
Quando tentamos dizer o que o ser é, tornamos ele um ente.
No horizonte de interpretação temos então a unicidade do ser em meio a multiplicidade dos entes.
Heidegger quer um fundamento na metafísica para juntas o ente e o ser.
Este fundamento é a palavra revelada: Deus.
Mas ele vê uma insuficiência na fé cristã e se afasta do catolicismo. Começa a pensar então que para entender o sentido do ser é preciso passar pelo ente. Para chegar ao ser, é necessário escolher um ente privilegiado.
Qual é então este ente privilegiado??? O HOMEM.

25 de setembro de 2010

A trajetória de Foucault

Foucault divide sua trajetória por momentos e fases.

1º momento: Fase da arqueologia
Nesta fase ele procura conhecer determinados saberes que se constituem de determinada maneira e para isso cria a noção de episteme, ou seja, um conjunto de saberes que constituem um grupo específico. De tempos em tempos a sociedade cria saberes com regras e normas e o problema é o controle, a forma de manipular a sociedade.
Podemos usar o exemplo da informática. Toda nossa vida está informatizada. A principal condição para esta informatização é o crescimento da população. Tudo que o homem cria é para uso dele e benefício dele mesmo, mas determinados saberes surgem para suprir estas necessidades e com isso vem o controle.

2º momento: Fase da genealogia
Nesta fase ele se preocupa com outro grupo social. Naquele que o âmbito é a justiça. Levanta a forma como certas pessoas são marginalizadas e como serão tratadas tanto pela sociedade como por órgãos competentes. Sua questão é como identificar e determinar que é criminoso?

3º momento: Fase da ética
Nesta fase ele quer saber a constituição do sujeito enquanto sujeito. Trabalha com momentos de ruptura e nestes momentos de ruptura surgem novos fatores que constituem novas epistemes.

O objetivo de Foucault é fazer um diagnóstico do presente em função do que vimos no passado. Para isso, é preciso considerar todo histórico da época: literatura, religião, ciência, filosofia, história etc. Ele se utiliza de documentos da época e diz claramente que não devemos interpretar os documentos em suas entrelinhas, mas focar no conteúdo deste documento. Na medida que interpretamos, distorcemos o que está contido neste.

Sua obra é um retrato fiel às épocas retratadas.

14 de setembro de 2010

O ignorante político

O pior analfabeto não é quem não sabe ler e escrever, quem só consegue se guiar pelas cores dos ônibus, quem não frequenta uma escola e escreve o nome com sua digital.
O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, não vê, não quer participar da vida que lhe cerca e nem dos acontecimentos políticos de seu país, da sua cidade e do seu bairro.
Porém, ele não sabe que o custo de vida, o preço do arroz e do feijão, da gasolina, da condução, do aluguel, do remédio e, inclusive, dependem das decisões tomadas pelos políticos.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política. Mas mal sabe ele que da sua ignorância política, nasce a corrupção, a universidade sucateada, o menor abandonado, o assaltante e o pior de todos os bandidos: o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas multinacionais que só tiram proveito das vantagens pessoais para ele e para seus amigos, do cargo que ocupa e segue impune enriquecendo a cada ano, a custa dos milhares de ignorantes políticos que votaram nele.
Não seja um analfabeto político.

"Não há nada de errado com aqueles que não
gostam de política, simplesmente serão
governador por aqueles que gostam."
Platão

3 de setembro de 2010

"Creio que aqueles que mais entendem de felicidade são as borboletas e as bolhas de sabão...
Ver girar essas pequenas almas leves, loucas, graciosas e que se movem é o que,
de mim, arrancam lágrimas e canções.
Eu só poderia acreditar em um Deus que soubesse dançar.
E quando vi meu demônio, pareceu-me sério, grave, profundo, solene.
Era o espírito da gravidade. ele é que faz cair todas as coisas.
Não é com ira, mas com riso que se mata. Coragem!
Vamos matar o espírito da gravidade!
Eu aprendi a andar. Desde então, passei por mim a correr.
Eu aprendi a voar. Desde então, não quero que me empurrem para mudar de lugar.
Agora sou leve, agora vôo, agora vejo por baixo de mim mesmo,
agora um Deus dança em mim!"

(Friedrich Nietszche)
03/09/2010 - 22:53

29 de agosto de 2010

Amizade estelar

Nós éramos amigos e nos tornamos estranhos um para o outro. Mas está bem que seja assim, e não vamos nos ocultar e obscurecer isto, como se fosse motivo de vergonha. Somos dois barcos que possuem, cada qual, seu objetivo e seu caminho; podemos nos cruzar e celebrar juntos uma festa como já fizemos – e os bons navios ficaram placidamente no mesmo porto e sob o mesmo sol, parecendo haver chegado ao seu destino e ter tido um só destino. Mas então a todo-poderosa força de nossa missão nos afastou novamente, em direção a mares e quadrantes diversos, e talvez nunca mais nos vejamos de novo – ou talvez nos vejamos, sim, mas sem nos reconhecermos: os diferentes mares e sóis nos modificaram! Que tenhamos de nos tornar estranhos um para com o outro é a lei acima de nós: justamente por isso devemos nos tornar mais veneráveis um para o outro! Justamente por isso deve-se tornar mais sagrado o pensamento de nossa antiga amizade! Existe provavelmente uma enorme curva invisível, uma órbita estelar em que nossas tão diversas trilhas e metas estejam incluídas como pequenos trajetos – elevemo-nos a este pensamento! Mas nossa vida é muito breve e nossa vista muito fraca, para podermos ser mais que amigos no sentido desta elevada possibilidade. E assim vamos crer em nossa amizade estelar, ainda que tenhamos de ser inimigos na Terra.

(NIETZSCHE, F. Die fröhliche Wissenschaft - Gaia Ciência, aforismo 279)