29 de agosto de 2010

Amizade estelar

Nós éramos amigos e nos tornamos estranhos um para o outro. Mas está bem que seja assim, e não vamos nos ocultar e obscurecer isto, como se fosse motivo de vergonha. Somos dois barcos que possuem, cada qual, seu objetivo e seu caminho; podemos nos cruzar e celebrar juntos uma festa como já fizemos – e os bons navios ficaram placidamente no mesmo porto e sob o mesmo sol, parecendo haver chegado ao seu destino e ter tido um só destino. Mas então a todo-poderosa força de nossa missão nos afastou novamente, em direção a mares e quadrantes diversos, e talvez nunca mais nos vejamos de novo – ou talvez nos vejamos, sim, mas sem nos reconhecermos: os diferentes mares e sóis nos modificaram! Que tenhamos de nos tornar estranhos um para com o outro é a lei acima de nós: justamente por isso devemos nos tornar mais veneráveis um para o outro! Justamente por isso deve-se tornar mais sagrado o pensamento de nossa antiga amizade! Existe provavelmente uma enorme curva invisível, uma órbita estelar em que nossas tão diversas trilhas e metas estejam incluídas como pequenos trajetos – elevemo-nos a este pensamento! Mas nossa vida é muito breve e nossa vista muito fraca, para podermos ser mais que amigos no sentido desta elevada possibilidade. E assim vamos crer em nossa amizade estelar, ainda que tenhamos de ser inimigos na Terra.

(NIETZSCHE, F. Die fröhliche Wissenschaft - Gaia Ciência, aforismo 279)

24 de agosto de 2010

Ninguém é uma ilha

O texto é de John Donne...

“Nenhum homem é uma ilha, completa em si mesma. Todo homem é um pedaço de continente, uma parte da terra firme. Se um torrão de terra for levado pelo mar, toda a Europa fica menor – porque perdeu um pouco de si mesma. Por isso, o assassinato de qualquer homem me diminui, já que sou parte da humanidade”.

“Ninguém passa por sacrifícios suficientes para chegar ao céu sem antes passar por momentos duros. A dificuldade da vida pode ser um tesouro por sua natureza, mas só pode ser usada como moeda corrente se servir para ajudar os outros”.

“Alguém pode estar agonizando neste momento, e todo o seu sofrimento jazer inútil aos pés de sua cama. Pois todos os momentos difíceis que este homem passou não serviram de exemplo para ninguém”.


(ter, 24/08/10 por Paulo Coelho - http://colunas.g1.com.br/paulocoelho/)

8 de agosto de 2010

O destino da obra de arte

"Cheguei mesmo a me perguntar se toda obra humana não é provisória - mesmo um quadro, mesmo uma estátua, mesmo uma obra arquitetual, mesmo o Paternon.
Seja qual for a solidez do Paternon, o que resta dele é muito pouco e não temos nenhuma ideia do que era quando acabara de ser construído.
Mesmo o que resta vai desaparecer. Talvez se consiga, à custa de tanto colocar cimento nas colunas, mantê-lo por cem anos, duzentos anos, digamos quinhentos anos, digamos mil anos.
Mas, enfim, chegará um dia em que o Paternon não existirá mais.
Pergunto-me se não seria mais honesto abordar a obra de arte sabendo que ela é provisória e irá desaparecer, e que, na verdade, relativizando, não há diferença entre uma obra arquitetural feita em mármore maciço e um artigo de jornal, impresso em papel e jogado fora no dia seguinte."

Jean Renoir, entrevista dada ao Cahiers du Cinéma, nro. 8, nov. 1958

7 de agosto de 2010

O sublime em Kant

A obra de Immanuel Kant, "Observações sobre o sentimento do belo e do sublime" (1764).

Nesta obra, Kant se propõe a observar, sob escolhas próprias, o sentimento do belo e do sublime e, em especial, analisar as implicações que o âmbito social pode infligir nestes sentidos.
Essa obra representa parte da produção da primeira fase do filósofo de Königsberg. Sendo assim, procuramos tecer uma análise filosófica do processo seguido por Kant.
A obra kantiana é composta por uma descrição dos comportamentos humanos numa alçada universal, para posteriormente traçar o ideal de elegância em que se inclui o ditame dos refinamentos e que, também, delineia o que poderia ser colocado como "homem esclarecido".
Este então baliza sua conduta pela crítica externa, pois vive num corpo social e segue o estatuto que o conduz, o qual é socialmente aceitável e previamente escolhido.
Para que os conceitos do sentimento do belo e do sublime sejam seguidos, os vícios e fraquezas morais necessitam ser combatidos, com princípios universais de benesses. Isso torna uma ação justa melhor identificável.
Ela decorre de um sentimento moral que Kant, na obra "Investigações sobre a evidência dos princípios da teologia natural e da moral" de 1762, diria ser solo para a idéia de obrigação do dever de agir para o bem.
Entrementes, nas "Observações", o sentimento moral é associado à conduta do homem justo em relação às outras modalidades de conduta, que interagem com ele, surgindo espaço para o sentimento de pudor (honra).
Neste aspecto, Kant se propõe à descrição das condutas humanas, a fim de acender a um ponto que capte o todo da natureza humana, de maneira que possa ser conhecido o princípio moral universalizado e este, esteja aos olhos de todos, promovendo a perfeição moral.
O juízo de gosto, quando expresso sem princípios universais que o rege, pode acarretar num germe contrário à socialização.
Por ora, vislumbramos que para Kant, que a organização social tem um caráter eminentemente de justiça e moral. Isso nos impõe a repensar as implicações dessa interpretação no juízo do gosto, ponto seqüencial na discussão kantiana, depois de definido como o sentimento do belo e do sublime manifestam suas propriedades empiricamente nas ações humanas.

Conceitos de Belo e Sublime: o belo seria o bonito aos olhos, agradável e o sublime é a beleza perigosa, admirável porém ameaçadora, grandiosa.

Yahoo respostas!

3 de agosto de 2010

Silêncio

O silêncio é uma virtude que nos evita a dizer tolices as vezes.

Ficar em silêncio pode ser a melhor forma de expressar em NADA o TUDO!

Silêncio é a ausência totalmente de sons, bem como de qualquer tipo de comunicação.

Por alguns, como um dispositivo negativo ou positivo, dependendo do ponto de vista e da circunstância.

1 de agosto de 2010

Para que Filosofia da Educação?


Talvez seja mais pertinente perguntar: Para que filosofia na educação?
A resposta é simples: porque educação é o próprio "tornar-se homem" de cada homem num mundo de crise.

Não há como educar fora do mundo. Nenhum educador, nenhuma instituição educacional pode colocar-se à margem do mundo, encarapitando-se numa torre de marfim. A educação sofrerá necessariamente o impacto dos problemas da realidade em que acontece, sob pena de não ser educação. Em função dos problemas existentes na realidade é que surgem os problemas educacionais, tanto mais complexos quanto mais incidem na educação todas as variáveis que determinam uma situação. Deste modo, a “Filosofia na educação” transforma-se em “Filosofia da Educação” enquanto reflexão rigorosa, radical e global ou de conjunto sobre os problemas educacionais. De fato, os problemas educacionais envolvem sempre os problemas da própria realidade. A Filosofia da Educação apenas não os considera em si mesmos, mas enquanto imbricados no contexto educativo. Penso que disto decorrem duas conseqüências muito simples, óbvias até! A primeira é que todo educador deve filosofar. Melhor ainda, filosofa sempre, queira ou não, tenha ou não consciência do fato. Só que nem sempre filosofa bem. A este respeito afirma Kneller (1972. p. 146): “se um professor ou líder educacional não tiver uma filosofia da educação, dificilmente chegará a algum lugar. Um educador superficial pode ser bom ou mau. Se for bom, é menos bom do que poderia ser e, se for mau, será pior do que precisava ser”. 

Que problemas no campo da educação exigem de nós uma reflexão filosófica, nos termos acima explicitados? São muitos. Permitam-me apontar apenas alguns.

Já que a educação é o processo de tornar-se homem de cada homem, é necessário refletir sobre o homem para que se possa saber o “para onde” se deve orientar a educação. É necessário, porém, que esta reflexão não seja unicamente teórica, abstrata, desencarnada. É preciso levar em conta a situação espaço-temporal em que ocorre o processo. Com efeito, não importa apenas o “tornar-se homem”, mas o “tornar-se homem hoje no Brasil”. Só desta forma podemos estabelecer com clareza o que, por exemplo, se tem convencionalmente chamado de “marco referencial”, a partir do qual, numa instituição educativa, currículo, planejamento e atividades podem atingir um mínimo de coerência e de eficiência. Que teoria de aprendizagem adotar? Que métodos e técnicas utilizar?

Já afirmavam Binet e Simon correr “o risco de um cego empirismo quem se conforma em aplicar um método pedagógico sem investigar a doutrina que lhe serve de alma”. Não há métodos neutros. Não há técnicas neutras. No bojo de qualquer teoria, de qualquer método, de qualquer técnica está implícita uma visão de homem e de mundo, uma filosofia. 

A filosofia é, assim, norteadora de todo o processo educativo. O maior problema educacional brasileiro sempre foi e ainda  é, a meu ver, o denunciado por Anísio Teixeira no título de uma de suas obras principais: “Valores proclamados e valores reais na educação brasileira”. Quer em nível de sistema, quer em nível de escola, proclamamos  belíssimos princípios filosófico-educacionais. Na prática, entretanto, caminhamos ao sabor das ideologias e das novidades e – o que é pior – sem nos darmos conta da incoerência existente entre nossas palavras e nossos atos.

A segunda conseqüência a ser tirada do que antes dissemos é que também o educando deve filosofar, ou seja, deve refletir sistematicamente, buscando as raízes dos  problemas - seus e  de seu tempo -  de modo a formar uma “visão de mundo” e adquirir criticamente princípios e valores que lhe orientem  a vida.  Só assim serão homens e não robôs. É preciso, pois, municiá-lo de instrumentos racionais e afetivos  para que se habitue a ser crítico, a não se contentar com qualquer resposta, a colocar sempre e em tudo uma pitada razoável de dúvida, a cavar fundo e não se intimidar perante a tarefa ingrata de estar sempre questionando e se questionando.
 A partir de minha já longa experiência de magistério, posso  afirmar que há sempre fome de filosofia. Basta levantar um problema nos termos acima descritos para que se alcem  as antenas, sobretudo as juvenis!  Talvez porque, tendo uma percepção não muito  nítida, mas agudamente sentida  da crise,  faltem aos jovens  o instrumental necessário  para explicitá-la,  analisá-la e julgá-la, em razão do banimento  a que assistimos da filosofia,  até mesmo de nossos currículos escolares.

Conclusão
Não há, portanto, como fugir à filosofia no campo da educação. Ela se relaciona intimamente  com a função nem sempre levada a sério e, não obstante, fundamental, de avaliar. De fato, a avaliação  resume, de certo modo, ou acompanha, como um  vetor ou como um eixo orientador, todo o processo educacional. Ela se faz presente no início do processo, ao estabelecermos as metas; no seu decurso, quando traçamos e executamos as estratégias; no final, quando julgamos o que e quanto foi cumprido. Ora, avaliar é emitir juízos de valor e estes implicam sempre, queiramos ou não, consciente ou inconscientemente uma posição filosófica, uma filosofia.

Uma frase, talvez, resuma tudo o que tentamos dizer: a filosofia é o aval da educação!