29 de outubro de 2010

Espinosa: oposição entre bem comum e verdadeiro bem


“Decidi enfim inquirir...”, com este pensamento inicial Espinosa abre seu discurso no intuito de pesquisar se existe realmente uma diferença ou oposição entre bem comum e verdadeiro bem, pois, se decidiu enfim é porque antes hesitou, comparou, analisou cartesianamente.
Para ele o objetivo desta busca é a felicidade, típica da filosofia dos antigos e que retorna na filosofia moderna. Sua hesitação é saber se realmente existe uma felicidade permanente e se vale a pena buscá-la.
Todo ser busca um bem porque dá uma determinada felicidade, porém, estes bens são apenas as aparências da felicidade e não a felicidade plena, permanente, eterna.
Mas o que é o bem comum? Existe um bem comum? Se existe em que consiste?
Espinosa diz que existem bens comuns e que distraem a nossa mente, classificando-os: prazer (físico), riqueza (material – dinheiro) e honras (fama, reconhecimento público).
Os bens comuns que distraem a mente são negativos. Portanto uma mente distraída perde suas funções deixando uma incerteza da verdade ou do verdadeiro: “Uma mente que se distrai, não pensa”.
Os estágios dessa distração são categorizados no prazer por repouso, perturbação, estupidez; na riqueza por esperança, inquietude; e, na honra por elevação, submissão.
Se ficarmos distraídos com os bens comuns não pensaremos nos verdadeiros bens.
No olhar de Espinosa cada escolha é uma renúncia de algo e a hesitação concentra-se em que toda comparação tem seus riscos.
Estes bens comuns são certos no presente e incertos no futuro, ou seja, são males certos (considerados por ele como exemplo o letígio, a tristeza, a inveja e o ódio) e não é isso que Espinosa busca. Ele busca algo novo que tenha uma continuidade e uma estabilidade: bens incertos no presente e certos no futuro – o verdadeiro bem.
Como abandonar os bens comuns para a busca do verdadeiro?
Abandonando a vida ordinária, repetitiva, ordenada e que distrai a mente.
Com isso ele trava uma “luta” entre os bens comuns e o verdadeiro bem, tornando os bens comuns uma coisa secundária; deixar de pensar no primeiro e colocar-se inteiramente no segundo. O foco agora é o verdadeiro bem, pois, se penso 24 horas somente no verdadeiro bem não tenho tempo de pensar nos bens comuns.
Deixo claro que não é uma renuncia total aos bens comuns mas uma “luta” contra a distração e ilusão que estes provocam no ser, atrapalhando o pensamento do que é o verdadeiro bem: deve-se ter um pensamento contínuo mas não só o pensamento. Pensar nele não é imaginação dele – a imaginação engana – pensar nele é ter a consciência da busca contínua o dia todo.
Mas o que é o verdadeiro bem e porque pode ser eterno?
Espinosa diz que o verdadeiro bem é a união com a natureza e o seu conhecimento, aquilo que constitui o Grande Todo, um acúmulo no processo de aperfeiçoamento.
A perfeição eu só descubro depois de um estudo minucioso do que governa na natureza com a verificação e a possível comprovação.
Precisamos do mundo externo para isso.
O verdadeiro bem é a própria busca pelo conhecimento e o aperfeiçoamento por essa busca constante.
Deixar de lado os bens comuns e, consequentemente, não fazer a mente se distrair. Deixar melhor a cada dia com o permanente, eterno e contínuo.
É o que remete a um conhecimento alhures, ou seja, nós só iremos compreender no futuro ou quando dessa busca.
“Buscar um verdadeiro bem significa supor que os outros não o são verdadeiro.”

Em suma, para Espinosa os bens comuns (prazeres, honras e riquezas) distraem a mente e não deixa a gente se preocupar, bvuscar, pensar 100% no verdadeiro bem que é o conhecimento unificado que a mente tem com a Natureza.
Ele diz que “...tudo que pode ser um meio para alcançar uma perfeição é um bem verdadeiro” e que perfeição “...é uma natureza humana mais forte que a natural”, ou seja, enquanto os bens comuns são certos no presente e incertos no futuro, seu inverso é o verdadeiro bem: bens incertos no presente mas certos no futuro.
“O Tratado da Emenda do Intelecto” é pura análise da mente humana por partes, ou seja,  como racionalista que é, ele usa o método cartesiano para chegar em conclusões sob o verdadeiro bem.

26 de outubro de 2010

O "Da-sein" heideggeriano


Para Heidegger, o pensar é um re-pensar. Pensar é re-pensar a sua origem. Re-pensar a história de uma origem que acabou. 
Com a origem da metafísica (momento privilegiado no qual Platão e Aristóteles colocaram as bases no que íamos conhecer como pensamento ocidental) é as condições adotadas por Platão e Aristóteles nortearam o percurso do pensamento após eles.
A metafísica é justamente a história do esquecimento desses pensamentos. São as noções que se movem no esquecimento como questões políticas, sociais, culturais etc.
Fazer reflexão sobre a metafísica para extrair dela os pressupostos jamais questionados é o que propóem-nos Heidegger que quer re-pensar as origens.
Para caminhar no questionamento radical da metafísica, precisamos de um fio condutor. Um horizonte de interpretação a partir do qual abre um espaço para criticar a metafísica.
Heidegger quer desconstruir a metafísica, pois só se desconstrói o que se dá importância. Desconstrói porque esgotou tudo que se tinha dela.
Desconstruir a metafísica é uma tarefa para se fazer com amor. Levando-a a sério vejo/encontro/desvelo seu ponto de partida escondido: Deus, Verdade, Homem (que são as principais questões tratadas por esta parte da filosofia, a metafísica).
O horizonte de interpretação não ocorre sem levar em consideração as facticidades (fatos).
Condições de facticidades são as condições que a coisa se dá. São sempre condições nas quais quem quer questionar a metafísica está.
Explicitar o horizonte de interpretação para se questionar a metafísica.

Qual seria então este horizonte de interpretação?
A unicidade e a multiplicidade do “ser”.
Aristóteles na Metafísica diz estudar o “ser” enquanto “ser”, entender o “ser” enquanto “ser”.

O Ente são todas as “coisas” que a filosofia se utiliza (homem, sapato, janela, ruído do transito, sonho...)
Sendo assim, todo ente “é”.
Os entes são múltiplos. O ser é único. O que tem em comum é que ente e ser “são”.

Qual o sentido de dizer que há infinitos entes e ao mesmo tempo igualmente são? Qual o sentido de dizer que o ente é?
A metafísica fala do ser, mas quando trabalha com o ser não fala.
“Conhecer [aquilo que é] enquanto [é].” Aristóteles
Aquilo que é, é um ente e o  que é dizer o que algo é?
Dizer o que algo é, é definir. Tomamos como exemplo: O homem é animal racional.

O ser é...
Quando se afirma “o ser é” já usamos o verbo SER que retrata o ser como indefinível.
Quando se tenta dizer o que o ser é, tornamo-lo um ente.

Para entender o sentido do ser, preciso passar pelo ente. Para chegar ao ser, tenho que escolher um ente privilegiado e qual seria este ente privilegiado?
Heidegger nos diz que é o HOMEM, mas que ele vai chamar de Da-sein ou "ser-aí" porque o HOMEM está contaminado demais pela metafísica.

12 de outubro de 2010

O mito da caverna

Quem diria que viveríamos o mesmo que Platão nos descreve no livro VII da República?
Mas aqui a estória é um pouco diferente: 33 mineiros foram resgatados de uma mina no Chile, após passarem aproximadamente 60 e poucos dias soterrados.
O mito da caverna ou alegoria da caverna que nos descreve Platão (logo abaixo na íntegra) é a mais fantástica metáfora filosófica.
O que impressiona e nos questiona é: Os mineiros sairão com as mesmas impressões de quando entraram na mina? Terão a mesma consciência de mundo do que quando desceram lá?  Têm noção do que se passou aqui fora?
Tirem suas considerações após a leitura do texto.



SÓCRATES – Figura-te agora o estado da natureza humana, em relação à ciência e à
ignorância, sob a forma alegórica que passo a fazer. Imagina os homens encerrados em
morada subterrânea e cavernosa que dá entrada livre à luz em toda extensão. Aí, desde a
infância, têm os homens o pescoço e as pernas presos de modo que permanecem imóveis e
só vêem os objetos que lhes estão diante. Presos pelas cadeias, não podem voltar o rosto.
Atrás deles, a certa distância e altura, um fogo cuja luz os alumia; entre o fogo e os cativos
imagina um caminho escarpado, ao longo do qual um pequeno muro parecido com os
tabiques que os pelotiqueiros põem entre si e os espectadores para ocultar-lhes as molas dos
bonecos maravilhosos que lhes exibem.
GLAUCO - Imagino tudo isso.
SÓCRATES - Supõe ainda homens que passam ao longo deste muro, com figuras e objetos
que se
elevam acima dele, figuras de homens e animais de toda a espécie, talhados em pedra ou
madeira. Entre os que carregam tais objetos, uns se entretêm em conversa, outros guardam
em silêncio.
GLAUCO - Similar quadro e não menos singulares cativos!
SÓCRATES - Pois são nossa imagem perfeita. Mas, dize-me: assim colocados, poderão ver
de si mesmos e de seus companheiros algo mais que as sombras projetadas, à claridade do
fogo, na parede que lhes fica fronteira?
GLAUCO - Não, uma vez que são forçados a ter imóveis a cabeça durante toda a vida.
SÓCRATES - E dos objetos que lhes ficam por detrás, poderão ver outra coisa que não as
sombras?
GLAUCO - Não.
SÓCRATES - Ora, supondo-se que pudessem conversar, não te parece que, ao falar das
sombras que vêem, lhes dariam os nomes que elas representam?
GLAUCO - Sem dúvida.
SÓRATES - E, se, no fundo da caverna, um eco lhes repetisse as palavras dos que passam,
não julgariam certo que os sons fossem articulados pelas sombras dos objetos?
GLAUCO - Claro que sim.
SÓCRATES - Em suma, não creriam que houvesse nada de real e verdadeiro fora das
figuras que desfilaram.
GLAUCO - Necessariamente.
SÓCRATES - Vejamos agora o que aconteceria, se se livrassem a um tempo das cadeias e
do erro em que laboravam. Imaginemos um destes cativos desatado, obrigado a levantar-se
de repente, a volver a cabeça, a andar, a olhar firmemente para a luz. Não poderia fazer
tudo isso sem grande pena; a luz, sobre ser-lhe dolorosa, o deslumbraria, impedindo-lhe de
discernir os objetos cuja sombra antes via.
Que te parece agora que ele responderia a quem lhe dissesse que até então só havia visto
fantasmas, porém que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, via
com mais perfeição? Supõe agora que, apontando-lhe alguém as figuras que lhe desfilavam
ante os olhos, o obrigasse a dizer o
que eram. Não te parece que, na sua grande confusão, se persuadiria de que o que antes via
era mais real e verdadeiro que os objetos ora contemplados?
GLAUCO - Sem dúvida nenhuma.
SÓCRATES - Obrigado a fitar o fogo, não desviaria os olhos doloridos para as sombras
que poderia ver sem dor? Não as consideraria realmente mais visíveis que os objetos ora
mostrados?
GLAUCO - Certamente.
SÓCRATES - Se o tirassem depois dali, fazendo-o subir pelo caminho áspero e escarpado,
para só o liberar quando estivesse lá fora, à plena luz do sol, não é de crer que daria gritos
lamentosos e brados de cólera? Chegando à luz do dia, olhos deslumbrados pelo esplendor
ambiente, ser-lhe ia possível discernir os objetos que o comum dos homens tem por serem
reais?
GLAUCO - A princípio nada veria.
SÓCRATES - Precisaria de algum tempo para se afazer à claridade da região superior.
Primeiramente, só discerniria bem as sombras, depois, as imagens dos homens e outros
seres refletidos nas águas; finalmente erguendo os olhos para a lua e as estrelas,
contemplaria mais facilmente os astros da noite que o pleno resplendor do dia.
GLAUCO - Não há dúvida.
SÓCRATES - Mas, ao cabo de tudo, estaria, decerto, em estado de ver o próprio sol,
primeiro refletido na água e nos outros objetos, depois visto em si mesmo e no seu próprio
lugar, tal qual é.
GLAUCO - Fora de dúvida.
SÓCRATES - Refletindo depois sobre a natureza deste astro, compreenderia que é o que
produz as estações e o ano, o que tudo governa no mundo visível e, de certo modo, a causa
de tudo o que ele e seus companheiros viam na caverna.
GLAUCO - É claro que gradualmente chegaria a todas essas conclusões.
SÓCRATES - Recordando-se então de sua primeira morada, de seus companheiros de
escravidão e da idéia que lá se tinha da sabedoria, não se daria os parabéns pela mudança
sofrida, lamentando ao mesmo tempo a sorte dos que lá ficaram?
GLAUCO - Evidentemente.
SÓCRATES - Se na caverna houvesse elogios, honras e recompensas para quem melhor e
mais prontamente distinguisse a sombra dos objetos, que se recordasse com mais precisão
dos que precediam, seguiam ou marchavam juntos, sendo, por isso mesmo, o mais hábil em
lhes predizer a aparição, cuidas que o homem de que falamos tivesse inveja dos que no
cativeiro eram os mais poderosos e honrados? Não preferiria mil vezes, como o herói de
Homero, levar a vida de um pobre lavrador e sofrer tudo no mundo a voltar às primeiras
ilusões e viver a vida que antes vivia?
GLAUCO - Não há dúvida de que suportaria toda a espécie de sofrimentos de preferência a
viver da maneira antiga.
SÓCRATES - Atenção ainda para este ponto. Supõe que nosso homem volte ainda para a
caverna e vá assentar-se em seu primitivo lugar. Nesta passagem súbita da pura luz à
obscuridade, não lhe ficariam os olhos como submersos em trevas?
GLAUCO - Certamente.
SÓCRATES - Se, enquanto tivesse a vista confusa -- porque bastante tempo se passaria
antes que os olhos se afizessem de novo à obscuridade -- tivesse ele de dar opinião sobre as
sombras e a este respeito entrasse em discussão com os companheiros ainda presos em
cadeias, não é certo que os faria rir? Não lhe diriam que, por ter subido à região superior,
cegara, que não valera a pena o esforço, e que assim, se alguém quisesse fazer com eles o
mesmo e dar-lhes a liberdade, mereceria ser agarrado e morto?
GLAUCO - Por certo que o fariam.
SÓCRATES - Pois agora, meu caro GLAUCO, é só aplicar com toda a exatidão esta
imagem da caverna a tudo o que antes havíamos dito. O antro subterrâneo é o mundo
visível. O fogo que o ilumina é a luz do sol. O cativo que sobe à região superior e a
contempla é a alma que se eleva ao mundo inteligível. Ou, antes, já que
o queres saber, é este, pelo menos, o meu modo de pensar, que só Deus sabe se é
verdadeiro. Quanto à mim, a coisa é como passo a dizer-te. Nos extremos limites do mundo
inteligível está a idéia do bem, a qual só com muito esforço se pode conhecer, mas que,
conhecida, se impõe à razão como causa universal de tudo o que é belo e bom, criadora da
luz e do sol no mundo visível, autora da inteligência e da verdade no mundo invisível, e
sobre a qual, por isso mesmo, cumpre ter os olhos fixos para agir com sabedoria nos
negócios particulares e públicos.


(Extraído de "A República" de Platão . 6° ed. Ed. Atena, 1956, p. 287-291)

8 de outubro de 2010

É difícil viver com as pessoas porque calar é muito difícil

O título do post é uma frase do filósofo Friedrich Nietzsche e que dispensa comentários sobre o texto abaixo transcrito.
Maria Rita Kehl era, eu disse era, colunista do Estadão mas foi demitida 4 dias após publicar o texto abaixo.

 

Trechos de artigo da psicanalista Maria Rita Kehl

O texto "Dois pesos...", da psicanalista Maria Rita Kehl, publicado no Estado de S. Paulo no último sábado (2), um dia antes das eleições, elogia a tomada de posição eleitoral do jornal - de apoio ao candidato José Serra, do PSDB - e critica as correntes de mensagens na internet que tentam desqualificar o voto dos mais pobres, beneficiados pelas políticas sociais do governo nos últimos anos.
Maria Rita Kehl ressalta o salto de qualidade de vida que as classes D e E tiveram nos últimos anos. "Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente", conclui a autora, depois de afirmar:
"Se o povão das chamadas classes D e E - os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil - tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola".
A psicanalista comenta mensagens que recebeu em sua caixa-postal relatando situações em que trabalhadores de renda baixa estariam supostamente recusando ofertas de trabalho no Ceará e no Piauí para continuar recebendo os benefícios do governo.
"Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria?", pergunta ela. "Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo".
Maria Rita Kehl afirma que o Brasil mudou para melhor, "ao contrário do que pensam os indignados da internet". E prossegue: "Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200?"
O artigo critica ainda os "cidadãos de classe A" que desqualificam a seriedade do voto de quem está saído da miséria: "Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos", conclui a autora.


Ética? Onde?
Liberdade de expressão? Democracia? Pra quê?


4 de outubro de 2010

Michel Foucault: O corpo, lugar de utopias

Abaixo uma parte da conferência de Foucault entitulada Le corps, lieu d'utopies de 1966.

Basta eu acordar, diz Foucault, que não posso escapar deste lugar, o meu corpo. Posso me mexer, andar por aí, mas não posso me deslocar sem ele. Posso ir até o fim do mundo, posso me encolher debaixo das cobertas, mas o corpo sempre estará onde eu estou. Ele está aqui, irreparavelmente: não está nunca em outro lugar. Meu corpo é o contrário de uma utopia. Todos os dias, continua Foucault, eu me vejo no espelho: rosto magro, costas curvadas, olhos míopes, nenhum cabelo mais... Verdadeiramente, nada bonito. Meu corpo é uma jaula desagradável. É através de suas grades que eu vou falar, olhar, ser visto. É o lugar a que estou condenado sem recurso.

Extraído do site: http://www.oestrangeiro.net