23 de dezembro de 2010

O "Vorstellung" de Kant

Quando se estuda ou lê Kant encontra-se em sua pretensão superar o impasse entre o racionalismo e o empirismo, segundo os quais a ênfase do conhecimento era posta pelos filósofos anteriores a ele.
Até Kant, a filosofia definia como conhecimento a priori aquele que partia das causas para os efeitos como o que independe da experiência e o conhecimento a posteriori como aquele que ia dos efeitos as causas, aquele construído com base nos dados fornecidos pela experiência sensível.
A partir destes dados, a priori e a posteriori, tomamos conhecimento sobre seus juízos sintéticos a posteriori, analíticos a priori e sintéticos a priori.
Juízos sintéticos a priori são aqueles que, sem terem derivados da experiência, acrescentam algo à compreensão do sujeito, no sentido de que dizem respeito às condições das possibilidades do conhecimento, à forma desse conhecimento, portanto, não propriamente a seu conteúdo. Não tem o predicado contido no sujeito, não são encontrados por análise.
Os juízos analíticos a posteriori são aqueles cujo atributo pertence necessariamente à essência ou a definição do sujeito. Atribui ao sujeiito um predicado formalmente no referido sujeito, como por exemplo, os corpos são externos.
Os juízos sintético a priori são aqueles em que o predicado está contido no sujeito. Para Kant o importante é descobrir a validade deste objeto e não sua verdade, daí que ele diria ter feito a "Revolução Copernicana".
Assim como Copérnico concedeu o modelo heliocêntrico invertendo o geocentrismo, Kant contruiu uma epistemologia invertendo o olhar sobre a metafísica tradicional e examinando o modo como conhecemos nossas possibilidades e limites.
Kant elabora o criticismo transcendental superando o dogmatismo racionalista e o ceticismo empirista.
A chamada "Revolução Copernicana" de Kant é a troca de posição entre o sujeito e o objeto onde ele coloca o sujeito no centro e o objeto girando em torno desse sujeito e, desta forma, o objeto passa a ser construído pelo sujeito e não mais dado como era anteriormente.
Kant inclusive trabalha com o termo "representação" (Vorstellung) onde o significado é a operação pela qual a mente tem presente em si uma imagem mental, uma ideia ou um conceito correspondendo a um objeto extenso.
Relacionando a representação de Kant aos três tipos de faculdades humanas - sensibilidade, entendimento e razão), temos:
Sensibilidade: sua representação é a intuição que tem o trabalho de levar à mente um objeto sensível;
Entendimento: sua representação é o conceito;
Razão: sua representação é a ideia.
A partir desse ponto, a matemática e a física foram consideradas ciências acabadas, ou seja, ciências completas, puras.
Sendo assim, a razão humana com seus limites faz a metafísica fracassar, mesmo porque para ela, a metafísica não é uma ciência. Não tem um objeto pelo qual se possa fazer experiência.
Fundamenta-se em opiniões e crenças e com isso pretende que a coisa em si seja um fenômeno.
Na filosofia de Kant, o termo fenômeno adquire um sentido particular, por oposição ao númeno.
O númeno designa a coisa em si, tal como existe fora dos quadros do sujeito. Quanto ao fenômeno, designa o objeto de nossa experiência, ou seja, aquilo que aparece nos quadros que lhe conferem as formas a priori da sensibilidade e as leis do entendimento.
O fenômeno nada tem de uma aparição ilusória, mas constitui o fundamento mesmo de todo o nosso conhecimento.
É a distinção entre númeno e fenômeno que permite resolver a antinomia entre determinismo e liberdade.
O homem enquanto fenômeno é determinado no tempo pelas leis da causalidade e enquanto númeno permanece livre, não é determinado por leis.
E para finalizar, Kant vem com o criticismo e diz que os seres humanos possuem uma razão pura, ou seja, aquela que não tomou contato com o mundo subjetivo, com as sensações, com a experiência ainda.
Há nessa razão pura as categorias e formas dentro da nossa mente onde os sentidos nos permitem ter contato com o mundo subjetivo.
Os sentidos atuam sobre os fenômenos onde consigo, por exemplo, apreender a cor da caneta e sua beleza e, uma vez apreendida, as sensações são jogadas para dentro de nossa mente e organizadas pelas categorias e formas.
Ele ainda diz que o conhecimento é uma interação entre o sujeito e o objeto, porque parte de um determinado dado absorvido por um objeto para se criar um juízo sintético a priori.
O conhecimento, do modo de pensar kantiano, é construído, tendo um conteúdo e uma forma, onde o objeto a posteriori e um sujeito a priori, sendo universais - com um adjetivo exprimindo a ideia de extensão completa de um conjunto - e necessários - aquilo que não depende de nenhuma outra causa ou condição para existir.

17 de dezembro de 2010

Trecho do aforismo 354 - A gaia ciência - Nietzsche

Do "gênio da espécie". — O problema da consciência (ou, mais precisamente, do tornar-se consciente) só nos aparece quando começamos a entender em que medida poderíamos passar sem ela: e agora a fisiologia e o estudo dos animais nos colocam neste começo de entendimento (...). Pois nós poderíamos pensar, sentir, querer, recordar, poderíamos igualmente "agir" em todo sentido da palavra e, não obstante, nada disso precisaria nos "entrar na consciência" (como se diz figuradamente). A vida inteira seria possível sem que, por assim dizer, ela se olhasse no espelho: tal como, de fato, ainda hoje a parte preponderante da vida nos ocorre sem esse espelhamento — também da nossa vida pensante, sensível e querente, por mais ofensivo que isto soe para um filósofo mais velho. Para que então consciência, quando no essencial é supérflua? Bem, se querem dar ouvidos à minha resposta a essa pergunta e à sua conjectura talvez extravagante, parece-me que a sutileza e a força da consciência estão sempre relacionadas à capacidade de comunicação de uma pessoa (ou animal), e a capacidade de comunicação, por sua vez, à necessidade de comunicação: mas não, entenda-se, que precisamente o indivíduo mesmo, que é mestre justamente em comunicar e tornar compreensíveis suas necessidades, também seja aquele que em suas necessidades mais tivesse de recorrer aos outros. Parece-me que é assim no tocante a raças e correntes de gerações: onde a necessidade, a indigência, por muito tempo obrigou os homens a se comunicarem, a compreenderem uns aos outros de forma rápida e sutil, há enfim um excesso dessa virtude e arte da comunicação, como uma fortuna que gradualmente foi juntada e espera um herdeiro que prodigamente a esbanje (— os chamados artistas são esses herdeiros, assim como os oradores, pregadores, escritores, todos eles pessoas que sempre vêm no final de uma longa cadeia, "frutos tardios“, na melhor acepção do termo, e, como foi dito, por natureza esbanjadores). Supondo que esta observação seja correta, posso apresentar a conjectura de que a consciência desenvolveu-se apenas sob a pressão da necessidade de comunicação — de que desde o início foi necessária e útil apenas entre uma pessoa e outra (entre a que comanda e a que obedece, em especial), e também se desenvolveu apenas em proporção ao grau dessa utilidade. Consciência é, na realidade, apenas uma rede de ligação entre as pessoas — apenas como tal ela teve que se desenvolver: um ser solitário e predatório não necessitaria dela.

O fato de nossas ações, pensamentos, sentimentos, mesmo movimentos nos chegarem à consciência — ao menos parte deles —, é conseqüência de uma terrível obrigação que por longuíssimo tempo governou o ser humano: ele precisava, sendo o animal mais ameaçado, de ajuda, proteção, precisava de seus iguais, tinha de saber exprimir seu apuro e fazer-se compreensível — e para isso tudo ele necessitava antes de "consciência" isto é, "saber" o que lhe faltava, "saber" como se sentia, "saber" o que pensava. Pois, dizendo-o mais uma vez: o ser humano, como toda criatura viva, pensa continuamente, mas não o sabe; o pensar que se torna consciente é apenas a parte menor, a mais superficial, a pior, digamos: — pois apenas esse pensar consciente ocorre em palavras, ou seja, em signos de comunicação, com o que se revela a origem da própria consciência. Em suma, o desenvolvimento da linguagem e o desenvolvimento da consciência (não da razão, mas apenas do tomar-consciência-de-si da razão) andam lado a lado. Acrescentese que não só a linguagem serve de ponte entre um ser humano e outro, mas também o olhar, o toque, o gesto; o tomar-consciência das impressões de nossos sentidos em nós, a capacidade de fixá-las e como que situá-las fora de nós, cresceu na medida em que aumentou a necessidade de transmiti-las a outros por meio de signos. O homem inventor de signos é, ao mesmo tempo, o homem cada vez mais consciente de si; apenas como animal social o homem aprendeu a tomar consciência de si — ele o faz ainda, ele o faz cada vez mais.

Adaptado de NIETZSCHE, F. W. A gaia ciência. São Paulo, Companhia das Letras, 2001.

15 de dezembro de 2010

A origem do Universo

Até hoje em dia há um questionamento sobre o surgimento do Universo que nos deixa um tanto quanto intrigados e porque não dizer que nos deixa curioso quanto às verdades e inverdades.
Não só cientistas mas vários filósofos de toda a parte do mundo questionam como o Universo havia surgido e de qual forma.
A chamada Teoria do Big Bang, por volta do século XX, nos trouxe a hipótese do Universo ter surgido de um "estouro" repentino sendo uma fase densa e quente ao qual passou.
Vários cientistas e filósofos contribuiram na questão da formação do Universo como por exemplo Einstein, Sitter, Friedmann, Hubble, Lamaitre, Laplace, George Gamow, Herman Bondi...
O Universo continua em expansão e em uma velocidade incrivelmente rápida, o que significa que as galáxias estão correndo umas das outras.
Além desta informação, pude notar que o Universo tem uma força gravitacional e sendo assim, possui forças antagônicas formado por um átomo primordial, infinitamente pequeno e de uma inteligência aprimorada - é o que nos afirma Lamaitre.
Esta força gravitacional foi o que provocou a condensação de massas imensas, as quais foram produzidas reações termonucleares onde se formam as estrelas e as galáxias que temos hoje.
Finalmente dessas reações nucleares é que átomos mais pesados se disseminaram no espaço formando alguns planetas, como o "nosso".

3 de dezembro de 2010

Mitos: do Sol, da Caverna e da Linha (Platão)

Algumas pessoas só conhecem o Mito da Caverna de Platão (o mais famoso e comentado em disciplinas de Filosofia) que consta no Livro VII da República.
Abaixo a explanação e uma pequena explicação dos demais mitos ricos em sabedoria também.

MITO DO SOL
Platão faz uma analogia do Sol com o Bem onde o Sol reprsenta o sensível no que concerne à visão e ao visível e o Bem ele relaciona ao inteligível e ao intelecto.
Quando os olhos veem na escuridão da noite, veem pouco ou nada e quando olham para a luz do Sol, veem com clareza e a visão assume o seu papel adequado.
Assim, acontece com a alma quando se mistura às trevas - o que nasce e morre - só é capaz de opinar e conjecturar, parece não ter intelecto, enquanto que quando contempla o que a verdade é o Se ilumina, ou seja, o puro inteligível assume a estrutura e papel, pois o Sol não só dá às coisas a capacidade de serem vistas, mas causa geração, crescimento nutrição.
Analogicamente, o Bem, não só causa a cognoscibilidade das coisas, mas causa-lhes também o Ser e a essencia.
Conquanto o Bem, não é a essência, está para além dela pela sua "dignidade e poder", a ideia do Bem infere às coisas conhecidas verdades e a que as conhece a "faculdade de conhecer a verdade".
E como a visão e o visto não são o Sol, mas afins do Sol, assim também o conhecimento e a verdade não são o Bem, são afins ao Bem.

MITO DA CAVERNA
Platão descreve a ascensão do homem (corpo e alma) ao conhecimento, a verdade através da capacidade de acessar coisas sensíveis e inteligíveis.
Na caverna, não viam mais que sombras (aparências) e com a saída, far-se-á a distinção entre aparência e realidade.
Os que permanecem na caverna, nao tem acesso à Paidéia (educação), ao conhecimento, à alétheia (verdade) e a escensão é gradual, contempla o fogo, os objetos, as imagens dos homens e objetos, refletidas na água, o céu, a luz das estrelas, a lua e, por fim, o Sol.
Faz-se aí a ruptura, lança-se o olhar sobre si, sobre o próprio espírito, conversão daquilo que era tateável para aquilo que é verdadeiro.
Platão descreve a subida da alma ao lugar inteligível (para o espírito a ideia do Bem é inteligível e inteligente) recorrendo novamente à imagem do Sol para ilustrar a "visão iluminada".
A visão é chamada a olhar o que está desvelado (alétheia), a forma inteligível (eidos), ou seja, o que está claro, evidente, a Ideia, a inteligibilidade, o inteligível.
O caminho da dialética ascendente é o mesmo da dialética descendente a partir de uma perspectiva ontológica onde os "dois mundos" formam uma realidade única: um conduz ao outro; relação entre o devir e a Ideia.

MITO DA LINHA
Platão descreve o conhecimento humano e as partes em que ele se divide recorrendo à imagem de uma reta dividida em dois e cada uma das partes novamente dividida em duas.
A primeira parte representa o conhecimento sensível. A segunda parte o conhecimento inteligível.
A cada objeto de conhecimento corresponde uma operação da alma: imaginação, suposição (eikasia); crença, fé opinativa (pistis, doxa), mais que suposição que tenho as coisas; operação realizada pelo raciocínio, poder do discurso, argumentação (dianoia); inteligência (noesis), passagem da alma de ideias para ideias, ato intelectual do conhecimento ou intuição intelectiva.
Ao propor a divisão da linha, Platão não divide necessariamente o mundo em dois (sensível e inteligível), mas apenas um mundo, proporcionalmente, analogicamente e geometricamente dividido em lugares e sob a égide do Bem (República), do Um (Parmênides), do Um-Bem (Doutrinas não-escritas), situado além da ousía, da realidade.
A cada um dos quatro segmentos, vão responder quatro atividades da alma.
Platão pontua que através da dialética atingir-se-ia o conhecimento do Ser e do inteligível, pois a ciência leva a hipóteses, tendo-se em vista que estudam pelo pensamento e não pelos sentidos. Desta forma, sem "subir até o princípio", porém, a partir de hipóteses, não se tem a inteligência, tem-se o entendimento.
O entendimento, segundo ele, é deste modo o intermediário entre a opinião e a inteligência e, sustenta ainda que quem não é capaz de definir a essência do Bem, abstraindo de todas as outras coisas, depois de tê-las percorrido, não conhece o verdaddeiro Bem.