31 de março de 2011

Em um mundo melhor

O filósofo Liebniz disse certa vez que vivemos no melhor dos mundos possíveis, mas o que vi hoje no filme do título deste post me deixou "fora de órbita".
Conseguiram colocar bullying, sentimento de culpa e famílias problemáticas de uma forma que além de prender a atenção, os acontecimentos seguidos uns dos outros, desencadeiam uma frenética "luta" até o instante final do filme.

Vale muito a pena assistir.
Título em portugues: Em um mundo melhor
Título original: Haevnen
Direção: Susanne Bier
Atores: Mikael Persbrandt, Trine Dyrholm, Ulrich Thomsen, William Johnk Nielsen

29 de março de 2011

Encontros filosóficos

Segundo Deleuze, um "encontro filosófico" entre temática e reflexão deve ser criador de novos conceitos. Entenda o modo de pensar deleuziano a partir da análise dos filmes produzidos por Andy Warhol.
João Epifânio Regis Lima*


Giles Deleuze costumava dizer que não escrevia, propriamente, sobre arte, mas que, ao encontrarse ou deparar-se com questões a ela relacionadas, tinha a oportunidade de criar novos conceitos. Criar conceitos, essa a tarefa da Filosofia, segundo o pensador francês, e tal tarefa podia ser realizada pelo que chamava de "encontros filosóficos" com temas ou problemas pelos quais se interessasse. Em perspectiva construtivista, Deleuze acreditava que todo contato com a reflexão filosófica deveria ensejar a criação de novos conceitos.
Os temas que foram de interesse para Deleuze não seguiram, muitas vezes, a ortodoxia das investigações filosóficas costumeiramente realizadas em sua época. Nem sempre Deleuze se dedicou aos autores consagrados pela tradição filosófica, e não foram raras as ocasiões em que se ocupou de conceitos inusitados, como "diferença", "repetição", "imagem-movimento", "Rizoma a", "ritornelo". É fascinante acompanhar em seus textos o modo todo particular, por vezes idiossincrático, como desenvolve suas reflexões na criação de conceitos.
No que diz respeito ao cinema, por exemplo, é de especial interesse, inicialmente, seu conceito de "diferença", desenvolvido no livro Diferença e Repetição (1968). Segundo Deleuze, não há identidade. Na repetição, nunca temos como resultado algo idêntico ao original; mesmo na cópia há diferença, há o novo. O cinema é a expressão inequívoca de tal conceito. Os vários fotogramas da fita cinematográfica estão para a fotografia como o devir está para o ser. Deleuze concebe um mundo onde o estático dá lugar ao dinâmico, o idêntico ao diferente. Os fotogramas, ainda que aparentemente idênticos, ao sucederem-se no tempo proporcionam a perspectiva da mudança.
Quadro único do filme Empire, de Andy Warhol: produzido em 1964, o filme apresenta o Empire State, enquadrado no centro da imagem por oito horas e cinco minutos
Alguns filmes realizados por Andy Warhol permitem-nos aprofundar essas considerações. Tome-se como exemplo Empire, que foi exibido na grande exposição do artista americano organizada na Pinacoteca do Estado de São Paulo em meados do ano passado. Produzido em 1964, o filme apresenta o agora novamente mais alto edifício novaiorquino - Empire State - enquadrado no centro da imagem, ali, imóvel, silencioso (o filme é mudo) por oito horas e cinco minutos. À primeira vista, nenhum movimento, nenhuma mudança, nenhuma diferença entre os sucessivos fotogramas, mas apenas o icônico monumento arquitetônico protagonizando monoliticamente a cena e estabelecendo o que parecia ser o império do idêntico e do imóvel, em flagrante contraste com a agitação incessante da cidade. Com o tempo, entretanto, nota-se, ainda que com dificuldade, o passar da tarde, o diminuir das luzes, a luz natural sendo substituída pela artificial da grande metrópole com a chegada da noite. Tudo de modo muito lento, praticamente imperceptível.
Warhol aprofunda essa sensação ao estender o tempo do filme, exibindo-o numa velocidade de 16 quadros por segundo, mais lenta do que aquela em que foi feita a única e interminável tomada - 24 quadros por segundo. Desse modo, o próprio dia não parecia passar. Com um pouco mais de esforço, conforme nos lembra o catálogo on-line do MoMA a, é possível ainda observar não eventos como uma luz que pisca no alto de um prédio vizinho, marcando a passagem do tempo. O invisível tornava-se, assim, visível. O aparentemente perene passava.
Há uma série de outros filmes dirigidos por Warhol aparentados a Empire. Vários deles trazem closes frontais de rostos em tomada única e muito longa, de modo a serem confundidos com fotografias, até que um eventual bocejo ou piscar de olhos do protagonista denuncie sua verdadeira natureza cinematográfica.

Conceito de Unidade
MoMA
Fundado em 1929 por um grupo de mecenas das artes, dentre eles John D. Rockfeller II, o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) abriga importantes obras assinadas por artistas como Van Gogh, Munch, Picasso, Cèzanne e Matisse. No MoMa está exposto o famoso Campbell's Soup Cans, de Andy Warhol. Site: http://www.moma.org/
Um conceito deleuziano, derivado do conceito de diferença e que pode ser-nos útil neste ensaio, é o de unidade. Para Deleuze, unidade deve ser entendida como uma operação secundária, sob a qual a diferença, mais fundamental, tomaria forma e da qual emergeria. Trata-se, aqui, de reagir contra a postura da tradição filosófica, eminentemente platônico-aristotélica, de atribuir primazia à identidade, como princípio, relegando a diferença a segundo plano como sua derivada ou relativa.
A ideia de Deleuze é pensar a própria diferença como princípio, em torno da qual orbitaria o princípio, agora secundário, de identidade. Essa seria a revolução copernicana a levar adiante. Trata-se de pensar a diferença nela mesma, tornando-se positividade, e não de forma relacional ou relativa (situando-se entre objetos e apontando sempre o não isto, ou seja, o não idêntico). A postura a ser adotada é, portanto, antiplatônica. Assim, não haveria unidade ontológica intrínseca a coisa alguma, já que o diferente difere, já de partida, dele mesmo. Na esteira de Nietzsche, o ser não é, mas torna-se.
Como seguimento à perspectiva de centralidade atribuída por Deleuze ao conceito de diferença, cumpre explorar o novo sentido por ele conferido ao conceito de repetição. Esse conceito beneficia-se do bergsonismo presente no pensamento de Deleuze, levando em conta sua filosofia do tempo. A repetição não é concebida - segundo fora em perspectivas anteriores - como simples reapresentação do idêntico ao longo de um tempo concebido como pura sequência de instantes iguais, como se os instantes fossem as pérolas de um colar. Essa postura, ao adotar a lógica tradicional da repetição, representa um retorno à primazia da identidade, que Deleuze procura superar. Se a diferença passa a ser concebida como diferença-em-si, cabe novo papel à repetição, que agora traz o novo e o diferente e não mais o idêntico. Se a diferença é a essência do ser, é somente quando os seres se repetem enquanto não idênticos que tal essência é revelada.

A repetição é aqui concebida como a forma pura do tempo, tempo que não corresponde mais nem às manifestações cíclicas da natureza (relativas ao passado) nem à linearidade que constrói, recorrendo à memória, um tempo presente (como, na leitura deleuziana, propunha Kant). Repetição como forma pura do tempo refere-se ao futuro, em perspectiva que toma emprestada de Nietzsche a concepção de eterno retorno, não como desejo de repetição do mesmo, mas como exigência de reprodução do ser enquanto mudança, enquanto devir.
Bergson
Prêmio Nobel de Literatura de 1927, o filósofo francês Henri Bergson (1859-1941) escreveu obras como A evolução criadora, Duração e simultaneidade e O riso. Deleuze foi um grande estudioso do pensamento de Bergson.
De volta aos referidos filmes de Warhol, não é difícil encontrar neles acolhimento a esses conceitos deleuzianos. Vemos em tais filmes, por exemplo, uma aparente unidade imóvel e imutável, mas que, no fundo, mostra-se contínuo devir, verdadeiro substrato mutável de fenômenos ou aparências imutáveis. Além do mais, uma concepção tradicional de tempo não daria conta da riqueza e sutileza com que este é tratado nesses filmes, o que é feito de forma instigante pelo conceito deleuziano de repetição.
O tempo não é tido como representação indireta, conforme diz Deleuze em seu livro Cinema 2, mas o espectador experiencia o movimento do próprio tempo, que é pressuposto e manifestado pelos diversos elementos do filme, sejam atores, cenários, tomadas. Movimento e objeto são inseparáveis, conforme a leitura que Deleuze faz de Bergson a. Há, assim, apenas o fluxo do movimento e do próprio objeto, que se expressam de múltiplas formas. Não se trata, portanto, no filme, de representação do movimento ou dos objetos, mas de sua manifestação. Para compreender isso melhor, é necessário recorrer ao conceito deleuziano de imagem e a sua relação com o conceito de movimento.
A imagem, para Deleuze, não é tida como representação de algo, não é significante de um significado, mas é, ela mesma, a coisa enquanto imagem. Daí, possivelmente, a força da presença icástica e monumental do Empire State no filme que leva seu nome. É nesse sentido que a arte, para Deleuze, como para Nietzsche, é considerada ativa. Esse caráter ativo da arte vem da relação que mantém com forças relacionadas à manifestação da vida.
A título de ressalva, vale notar que adotar postura antiplatônica e afirmar a primazia da diferença não significa adotar a dialética hegeliana, baseada, como se sabe, na negação. O primeiro problema a considerar nesse caso, segundo Deleuze, diz respeito ao ponto de partida de tal dialética, ou seja, a tese, que nada mais é do que a afirmação da identidade. O conceito de diferença entraria, em tal sistema, apenas no segundo momento, para ser aniquilado, em seguida, na síntese, que não tolera a negação, justamente por ser negação da negação. Além disso, na ascese dialética do Espírito Absoluto rumo a seu autoconhecimento, as sucessivas sínteses, segundo Hegel, tornam-se novas teses, pontos de partida para novos degraus, novas tríades dialéticas.
O segundo problema a considerar é o caráter teleológico do sistema hegeliano. Para Deleuze, o devir não está voltado a fins preestabelecidos. Por ser princípio em si mesmo, esgota-se em seu próprio movimento, não estando submetido ou orientado a suposto coroamento ou superação fora de si próprio. O devir é, de forma inaugural e radicalmente, superação autorreferente irredutível à identidade estável do derradeiro passo do Espírito Absoluto na fenomenologia do espírito, segundo o que propõe Hegel.

*João Epifânio Regis Lima é doutor em Filosofia e mestre em Psicologia pela Universidade de São Paulo. É professor de Filosofia da Ciência e Estética na Faculdade de Filosofia da Universidade Metodista de São Paulo.

REFERÊNCIAS
DELEUZE, Gilles. Bergsonismo. São Paulo: Editora 34, 1994
_______. Cinema: a imagem-movimento. São Paulo: Brasiliense, 1985.
_______. Diferença e repetição. Lisboa: Relógio d'Água, 2000.
_______. A imagem-tempo: cinema 2. São Paulo: Brasiliense, 2005.
Deleuze, Gilles; Gua ttari, Félix. What is Philosophy? New York: Columbia University Press, 1994.

(texto extraído de http://filosofia.uol.com.br/filosofia/index.asp)

18 de março de 2011

Doce vingança

Maquiavel:
"O homem é mau por natureza."
"Quero ir para o inferno, não para o céu. No inferno, gozarei da companhia de papas, reis e príncipes. No céu, só terei por companhia mendigos, monges, eremitas e apóstolos."
"É melhor ser temido que amado."


Jean-Paul Sartre:
"O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós."
"A violência faz-se passar sempre por uma contra-violência, quer dizer, por uma resposta à violência alheia."
"Estamos condenados a ser livres."

Acima afirmação de dois filósofos que me trouxeram a refletir sobre o filme que assisti quarta-feira.
Trata-se de um remake do famoso "A Vingança de Jennifer" (Day of the Woman / I Spit on Your Grave) de 1978, com Camille Keaton e direção de Meir Zarchi.
Estreou com o nome de "Doce Vingança", 2010 e foi dirigito por Steven R. Monroe.
Sinopse: A escritora Jennifer Hills se refugia da cidade para começar seu novo livro numa encantadora cabana na mata, mas a presença dela chama atenção na pequena e reservada cidade. Alguns moradores decidem apenas assustá-la. No entanto, acabam desencadeando atos terríveis de humilhação e intimidação até o ponto de violência física e torturas. Jennifer consegue escapar antes de ser morta e concentra todas as suas forças para se vingar (sinopse retirada do UOL/Cinema-Video; grifos meus).


Parece mais um filme de terror, thriller ou de horror barato, mas nas entrelinhas de cada cena é que ficamos intrigados com alguns pontos.
Somos voyeur do diretor: é fechar os olhos para não assistir ou aguentar com eles abertos até até o final. Algumas pessoas deixaram a sala do cinema e outros, em algumas cenas, viravam o rosto para o lado.
Outro ponto interessante, que uma amiga me chamou atenção, foi que a mesma pessoa que é a vítima também é o algoz. Todos somos bons e maus. NATURALMENTE.
Quando digo naturalmente, preciso voltar às afirmações de Maquiavel onde "o homem é mau por natureza" e "é melhor ser temido que amado."
Para assistir este filme você precisará de uma dose de sadismo, porém, não aconselho aos com sentimentos aflorados ou cardíacos: ele pode chocar.
Taí a dica. Assista até o final ou fica pela sua imaginação!!!

13 de março de 2011

Do cinema para vida real

Steven Spielberg estava certo ou pelo menos "brincou" e acabou "acertando" algumas coisas com sua ficção...

1,6 mil pessoas já encontram-se mortas devido o tisunami do Japão, é o que dizem os tablóides do mundo.
Além disso, os níveis de radiação aumentaram devido o sistema de refrigeração de uma usina ser danificado pelo terremono/tisunami forçando um operador a liberar gás radioativo para reduzir a pressão.

É a natureza respondendo ao homem e o homem não consegue entender, ainda.

6 de março de 2011

A Gaia Ciência - Parágrafo 341 - Nietzche

E se, um dia ou uma noite, um demônio viesse introduzir-se na tua solidão e dissesse:
"Esta existência, tal como você a viveu até aqui, será necessário recomeçá-la sem cessar, sem nada de novo, muito antes pelo contrário. A menor dor, o menor prazer, o menor pensamento, o menor suspiro, tudo o que pertence à vida, voltará ainda a repetir-se, tudo o que nela há de indivizivelmente grande e pequeno, tudo voltará a acontecer e voltará a verificar-se na mesma ordem, seguindo a mesma impiedosa sucessão...esta aranha também voltará a aparecer, este lugar entre as árvores, e este instante, e eu também! A eterna ampulheta da vida será invertida sem descanso, e tu, com ela, infinita poeira das poeiras."
Você não se lançaria por terra rangendo os dentes e amaldiçoando este demônio? A menos que você já tenha vivido este instante prodigioso em que lhe responderia:
"Ora, você é um Deus, nunca ouvi palavras tão maravilhosas!"
Se este pensamento o dominasse, talvez você fosse transformado ou talvez aniquilado. Você se perguntaria a propósito de tudo:
"Você quer isso? E querer outra vez? Uma vez? Sempre? Até ao infinito?"
E esta questão pesaria sobre você com um peso decisivo e terrível! Ou então, ah! Como será necessário que você se ame e ame a vida para nunca mais desejar outra coisa do que esta suprema confirmação!"

Bom domingo e boa reflexão!!!

3 de março de 2011

A origem NATURAL da sociedade: justiça e injustiça

Segundo Platão, o homem nasce dotado de razão, mas é somente no contato com a sociedade que se torna um homem político.
Para ele, Platão, é através do contato com o outro que se cria justiça, ou seja, no corpo social, pois, quando há noção de trabalho ele tem a noção de justiça e injustiça.
Daí, a sociedade nasce do homem. Este homem precisa do outro para realizar-se como "animal pensante" e "animal político".

Através da noção de justiça e injustiça é que surge a divisão do trabalho:
1) A classe dos trabalhadores, onde enquadram-se aqueles produtores dos bens de consumo. É a classe mais inferior de todas (poiéses);
2) A classe dos guerreiros, onde enquadram-se os que são encarregados da defesa da pólis, da cidade e;
3) A classe dos governantes, onde enquadram-se os magistrados com educação superior para regular as relações sociais através das leis.
A justiça então reside na HARMONIZAÇÃO destas classes sociais e para que haja é necessário que cada homem cumpra o seu papel, o seu trabalho e o seu dever em consonância com a classe a que pertence (sem discutir, argumentar).
O problema é que nesta divisão de trabalho o homem se sente injustiçado e a justiça - que é criada por aqueles que tem o "poder" das leis - aparece para harmonizar isso.

Colocando esta posição de Platão nos dias atuais temos uma questão que mexe com a cabeça de todos: não há homem que nasça com aptidão de discernir o certo e/ou o errado para a humanidade perante a política, a sociedade, e nem com a possibilidade de por todas as leis em prática (isto devido a sua inteligência).
Dessa forma e ainda segundo Platão, o homem NÃO é NATURALMENTE político. Ele se torna/se faz político com seu RACIOCÍNIO em contato com a pólis.
Esta política é considerada uma ARTE porque é uma criação: o homem é criador de LEIS. A arte política é difícil porque é muito complicado separar o individual do comum.
As leis deveriam valer para a COMUNIDADE, mas o homem - dotado de razão, inteligência, racionalidade - tira proveito e transforma algumas coisas para seu BEM INDIVIDUAL.


Enquanto o homem continuar a tirar proveito das coisas para seu bel prazer, jamais as leis valerão universalmente.