30 de junho de 2011

Parte do Capítulo I de meu TCC - Filosofia Clínica: um instrumental útil em sala de aula

Filosofia não é só “amor à sabedoria”

A melhor maneira de se compreender o que é Filosofia, sem sombra de dúvida, é perguntarmos pelo seu modo peculiar de proceder, sem nos preocuparmos tanto com o que ela estuda ou o que ela é, mas como faz sua investigação. (Emmanuel Fraga[1])

Partindo da análise de Emmanuel Fraga, podemos constituir análises racionais e rigorosas do que vem a ser a Filosofia: um esforço interminável de fundamentar ideias.
A forma mais errada de julgar o exercício do filósofo é aproximá-lo de uma emissão de opiniões, a doxa (δόξα) grega, e "achismos", relacionados ao senso comum.
A filosofia, ao contrário disso, a todo o momento, tenta afastar as ideias superficiais e preconceituosas em direção às ideias fortes e bem articuladas. É indispensável que o trabalho do filósofo em primeiríssimo lugar seja pela precisão e rigor dos conceitos utilizados e por uma preocupação lógica e clara na exposição dos argumentos.
Isso não quer dizer que todas as obras filosóficas devem ser chatas, difíceis de ler, mas que apresentam algumas características próprias que nos possam diferenciá-las da com a Literatura e de outros escritos.
Esta análise filosófica deve se preocupar com a sua totalidade e não com as partes individuais dos problemas.
Cito como exemplo, para uma maior compreensão, que a sociologia tem por objeto a sociedade; a psicologia, a alma ou psique; a física, os corpos em movimentos e assim por diante, mas todas constituem áreas específicas do saber, que mesmo quando ultrapassam seus limites tem o intuito de solucionar problemas mas continuam limitadas às suas perspectivas singulares por serem ciências.
Lamento dizer, mas isso não acontece com a Filosofia!
O primeiro passo da reflexão filosófica é a suspensão de todo referencial na tentativa de que venha a limitar o caráter abrangente, característico da Filosofia, conforme nos afirma Monica Aiub[2] em seu livro Filosofia Clínica e Educação. Assim, “o filósofo é aquele que tem por obrigação uma visão alargada e razoável do mundo e dos saberes”, sendo, desse modo, o debatedor mais competente dentre os demais, pois é capaz de unir as diversas perspectivas ou perceber seus pontos fracos.
Neste caso, o filósofo seria uma pessoa de mente aberta e de constante preocupação em busca das novas formas de visar os problemas.
Agora, se o filósofo pretende refletir sobre os problemas e temas relevantes, para que possa construir uma argumentação coerente e com as características anteriormente abordadas, transformará seu pensamento em crítica, ou seja, nas formas anteriores de abordagem da questão, aos sistemas filosóficos que o antecederam, à tradição e tantas outras mais. Essa é a forma mais característica do filósofo proceder, no entanto, não se trata de uma crítica ofensiva, mas um pôr-em-questão, com a finalidade de perceber os limites das teorias vigentes e de apontar novas formas de abordagem.
Monica Aiub é bem clara quando nos diz:
A reflexão filosófica, nesses momentos, pode ser uma ajuda bem-vinda, pois, sem direcionar, isenta de visões dogmáticas, exercita o pensar de maneira organizada, com métodos, permitindo uma visualização clara da situação e, consequentemente, uma escolha avaliada, refletida, com um maior grau de segurança. Esse papel da filosofia esteve presente desde seu nascimento, mas durante um longo período, ficou esquecido, vendo-se a filosofia como uma atividade meramente contemplativa. É comum ouvirmos piadas zombando do filósofo como o erudito cuja “sabedoria” não serve para nada. Algumas pessoas, mal informadas, levam a piada a sério e acreditam que a filosofia é pura perda de tempo, refletir acerca de problemas insolúveis, ou, no mínimo, sem importância. (Para entender filosofia clínica: o apaixonante exercício de filosofar, 2008, p. 13)

Seu rigor característico da atividade racional está frequentemente aliado, no exercício filosófico, à ideia de sistematização. É indispensável na exposição de argumentos, além da clareza e precisão, que o filósofo reflita e demonstre de modo sistemático seu o raciocínio.
Um conjunto confuso e superficial, com ausência de encadeamento lógico, desqualifica um trabalho que pretende ser filosófico.


[1] Emmanuel Fraga é formado em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e especialista em Informática Educativa pela Universidade Castelo Branco (UCB-RJ).  Ministra aulas de Filosofia no Ensino médio da Rede Pública, além de fazer parte do quadro de professores do Curso de pós-graduação em Informática na Educação da UCB-RJ.
[2] Monica Aiub tem licenciatura em Filosofia e pós-graduação em Educação Brasileira pela Universidade de Santos (UniSantos), bacharel em Música pela UNESP e pós-graduada em Filosofia Clínica pelo Instituto Packter. É filósofa clínica, sócia fundadora e presidente da Associação Paulista de Filosofia Clínica, membro da Comissão Nacional de Avaliação de Estágios em Filosofia Clínica, professora titular do Curso de Especialização em Filosofia Clínica nos Centros de São Paulo e baixada santista, professora do Curso de Graduação em Filosofia no Centro Universitário São Camilo, mestrada em Filosofia na Universidade São Carlos.

20 de junho de 2011

Ética a Nicômaco - Aristóteles

"Assim, a virtude é uma disposição para agir de maneira deliberada, consistindo numa mediania relativa a nós, a qual é racionalmente determinada e como a determinaria o homem prudente, mas é uma mediania entre dois vícios, um pelo excesso, outro pela falta."

Por isso, entendemos que:
1) A virtude é uma mediana;
2) O homem prudente determina racionalmente a virtude;
3) Os vícios são excessos ou faltas.

16 de junho de 2011

Em tempos adversos

O texto abaixo foi extraído da Revista Filosofia - Ano V - Nº 59 e escrito por Renato Janine Ribeiro - professor titular de Ética e Filosofia Política na Universidade de São Paulo e deixo como reflexão para todos.

Um dos grandes temas correntes ao longo da história da Filosofia é como enfrentar a adversidade.
Em francês, até se diz que uma pessoa trata uma situação difícil "en philosphe", como filósofo, querendo dizer exatamente isso: que ela consegue vivenciar as piores coisas sem se desesperar, aceitando as perdas sem, com isso, também ela se perder.
Os momentos felizes ou prazerosos são fáceis. Podem ser instantes de prazer, fulgurando em nossa vida. Ou pode ser todo um tempo mais duradouro em que somos felizes, isto é, não temos tanto prazer ou tantos prazeres, mas o que temos - ou o que somos - dura mais. O árduo é quando somos afetados pelo infortúnio. Este é o contrário da fortuna, da sorte, da boa sorte. O infortúnio é o azar, mas precisamente aquele azar que não pudemos prever nem conjurar. Quando a Astrologia pertencia ao cânone dominante da sociedade, a pessoa infortunada não era apenas a infeliz - era aquela que os astros vitimaram sem que ela pudesse impedir as coisas más de sucederem.
Contra o infortúnio, o homem moderno ergueu inúmeras defesas. Desde que começa o que Max Weber chamou a "racionalização do mundo", por volta do século XV ou XVI, procuramos causas racionais para tudo o que acontece - e, assim, meios racionais de promover o sucesso e evitar o fracasso. Basta ver quantos tipos de seguro temos hoje - não apenas o de vida ou de acidentes, mas variações inúmeras em torno deles e de outros.
Precavemo-nos. Nossa sociedade conhece a saúde humana como talvez nenhuma anterior. Um check-up é um recurso para impedir a doença e adiar a morte. Não precisamos mais apelar a potências invisíveis para nosso bem: a razão nos ajuda.
Contudo, o insucesso ficou mais insuportável. Comentou-se quando morreu o ex-vice-presidente José Alencar, que pela força de vontade ele conseguira vencer o câncer durante 15 anos; a isso, o oncologista Drauzio Varella respondeu que a doença não é melhorada nem piorada pela disposição do paciência - e que a ênfase na "coragem" de um doente acaba trazendo o efeito, nada desejável, de fazer de sentirem culpados os que não mostram a mesma valentia... É um dos casos, em nossa sociedade, em que o fracasso se torna duplo. É o fracasso "objetivo", diante da doença, e um fracasso imaginado, a culpa de não ter sucesso. É a figura do loser, o perdedor, tão desdenhado na cultura norte-americana.
O filósofo que faz frente aos males da vida "como filósofo" é, justamente, o fracassado que não tem vergonha do fracasso. Que culpa terá ele, aliás, se tanta coisa não depende dele, como não depende de nós?
Não sabemos quando morreremos.
Édipo Rei, de Sófocles, termina com o comentário de que ninguém se pode dizer feliz antes de terminar a jornada neste mundo: porque até a pessoa que parece mais bem-sucedida, como o poderoso rei Édico, de bela mulher e belos filhos, pode em algum momento perder tudo. Nós, modernos, temos dificuldade em aceitar isso. Mas mesmo que planejemos as coisas ao máximo - e planejar é o combate racional contra o infortúnio -, ainda resta lugar para o imprevisível desastre.
Não será o caso, então, de guardar no estoque de nossas experiências possíveis, essa de filosoficamente assistir às perdas? Ganhamos muito ao conseguir reduzir os riscos que rondavam a vida humana. A mortalidade infantil, que fazia a expectativa de vida - apenas um século atrás - ser inferior a 40 anos, despencou. Em 100 anos, mais que dobrou a esperança de vida. Mas se assim se reduziu o medo em nossas vidas, nem por isso devemos perder algumas linguagens, algumas formas de sentir o que nos acontece. Conseguir a serenidade mesmo quando tudo em nossa volta desaba é sinal de grande sabedoria.

14 de junho de 2011

Nenhum a menos

Acredito que todos nós já passamos pela mesma situação ou alguma situação parecida com a da professora do filme Nenhum a menos: querer jogar tudo para o alto e desistir. Mas a situação de realização no final e de missão cumprida é mais gratificante para os profissionais da educação, pois colocar "panos quentes" ou entregar os pontos é muito fácil.
As condições da escola, do local, a professora tendo que se adaptar e saber o que cada coisa significava ali naquele local de seu trabalho, tudo caminha para a sensibilização de todos. Como exemplo, cito que existem algumas escolas no norte e nordeste de nosso país, onde alunos precisam da própria escola para se alimentar e dormir (exatamente igual o filme). É vergonhoso e lamentável, mas é real.
Outro ponto que me chamou atenção foi a evasão que uma aluna tem - dando a possibilidade para os demais procurarem a mesma coisa - com a possibilidade de inovar sua educação saindo dessa condição paupérrima e indo estudar em uma escola que realmente a valorizasse.
A proposta da professora em ir atrás do aluno que saiu da escola para trazê-lo de volta é a maior prova de responsabilidade com aquela educação que ela ficou responsável, uma vez que o professor titular, tendo que se ausentar, pediu que ela não deixasse nenhum dos alunos em falta. A união das crianças e a preocupação com a colega tornou todos responsáveis indiretamente por esta evasão.
Noto aí que a responsabilidade social não foi a única coisa que aprenderam. O senso de divisão, colaboração, comprometimento, coletividade aparece claramente em cada cena posterior: o momento que repartem a coca-cola é um dos diversos exemplos que o filme nos apresenta.
Não era só trancar na sala para não fugirem ou "prendê-los" com canções, ultrapassou isso quando mostrou a eles e ensinou a solidariedade e a união em um país que podia ser justo e igualitário.
O filme reforça ainda a crise na educação onde o mundo capitalista subdesenvolvido e desenvolvido, assim como o mundo socialista, representado pela China, sofrem suas consequências: prova de que a crise está acima de sistemas políticos. mesmo em um sistema, supostamente, igualitário, existem crianças atletas ou gênios que escaparão à pobreza, assim como uma elite pode sair do país para assistir a Copa do Mundo.
As verdadeiras soluções, no entanto, aparecem com o comprometimento de toda a sociedade com os problemas, com um melhor preparo dos educadores, transferindo-os da esfera privada para o âmbito público: simplesmente pelo fato de que a verdadeira revolução e transformação humana inicia-se dentro de nós mesmos, como no caso da professora Wei, e também que sozinhos não significamos muita coisa, somos apenas como gotas d'agua mas unidos por um ideal somos como um imenso oceano.

Título em português: Nenhum a menos
Título original: Yi Ge Dou Bu Neng Shao
Direção: Zhang Yimou
Atores: Wei Minzhi, Zhang Huike, Tian Zhenda, Gao Enman, Sun Zhimei, Feng Yuying, Li Fanfan, Zhang Yichang, Xu Zhanging, Liu Hanzhi.

2 de junho de 2011

Zaratustra - Parte IV - A canção bêbada

"O mundo é profundo,
E mais profundo do que o dia pensava.
Profunda é sua dor,
Mais profunda ainda é a alegria.
A dor diz: passa!
Mas a alegria quer a eternidade,
Que profunda, profunda eternidade."