31 de agosto de 2011

O que é o amor?


Entende-se habitualmente que o amor é uma poderosa emoção que implica uma intensa ligação a um objecto e uma grande valorização desse objecto. Em algumas acepções, contudo, o amor não implica, de todo, emoção, mas somente um interesse activo no bem-estar do objecto. Noutras situações o amor é essencialmente uma relação que implica permutação e reciprocidade, mais propriamente que uma emoção. Além disso, há muitas variedades de amor, incluindo o amor erótico-romântico, o amor da amizade e o amor filantrópico. Culturas diferentes também admitem diferentes tipos de amor. O amor tem, igualmente, uma arqueologia complicada: porque tem fortes conexões com experiências de afecto precoces, pode existir na personalidade a diferentes níveis de profundidade e nitidez, apresentando problemas específicos para o autoconhecimento. É um erro tentar fazer uma descrição excessivamente uniformizada de um tão complexo conjunto de fenómenos.

O amor tem sido entendido por muitos filósofos como fonte de grande riqueza e energia na vida humana. Mas mesmo aqueles que exaltam a sua contribuição têm-no visto como uma potencial ameaça à vida virtuosa. Por esta razão, os filósofos na tradição ocidental têm-se preocupado em apresentar descrições da reforma ou "elevação" do amor, com vista a demonstrar que há formas de conservar a energia e a beleza desta paixão, ao mesmo tempo que se eliminam as suas más consequências.

1. Amor: emoção, relação, acção

Entende-se frequentemente que o amor é uma emoção poderosa. Parece implicar quer uma intensa ligação a um objecto quer uma elevada valorização do objecto. Muitas vezes, embora nem sempre, o objecto é visto como algo de que alguém necessita na sua própria vida; por esta razão, o amor é muitas vezes relacionado com projectos de posse ou incorporação, e com emoções ciumentas para com o objecto visto como independente e capaz de frustrar as necessidades do amante. Espinosa (1677) sustentou que o amor implica ter consciência do objecto enquanto algo que suscita o próprio bem-estar de alguém. Visto que todos os objectos particulares são, também, em virtude da sua separação do eu, capazes de frustrar o bem-estar, todo o amor, concluiu Espinosa, é essencialmente ambivalente, misturado com raiva e mesmo ódio. Pode-se, contudo, defender que o amor é uma emoção ou emoções, enquanto se insiste que estas emoções podem ser isentas de ciúme e desejo possessivo. Assim, Platão, no Fedro, concebe o amor como uma poderosa reacção à beleza e ao mérito, que está estreitamente ligada, nas pessoas virtuosas, à veneração e ao temor; deste modo, respeita a separação do objecto e procura o seu bem. Estas considerações descrevem diferentes experiências, podendo ambas ser reais (como Platão, ao contrário de Espinosa, reconheceu).

O amor não é apenas uma emoção: pode também ser um tipo de relação. Aristóteles, na Ética a Nicómaco, insistiu que o amor (da amizade) implica sempre conhecimento mútuo e benevolência recíproca. Embora qualquer descrição do amor necessite de abrir caminho para amores que não são correspondidos, ou que são dirigidos para objectos que não podem retribuir (como bebés ou alguns animais) ou que não podem fazê-lo tão claramente (como Deus), a insistência de Aristóteles na interacção e na reciprocidade fornece um ingrediente importante para uma descrição normativa de muitos tipos de amor humano, quer da amizade quer romântico-erótico. Com efeito, a recusa em conceber o amor em termos relacionais é uma deficiência central em muitos casos de amor erótico, nos quais o objecto amado é, de facto, tratado como um objecto a ser possuído e imobilizado. Embora Proust pensasse que tais desígnios eram essenciais ao amor erótico, pode-se duvidar disto.

Alguns amores podem não envolver, de modo algum, uma emoção forte. Kant (1797) insistiu que o "amor patológico" (amor que envolve uma emoção passiva) era inferior ao "amor prático", uma ligação activa ao bem dos outros, incluindo emoções de respeito e preocupação. Quer concordemos quer não, devíamos reconhecer que este comprometimento prático activo é um tipo de amor: o amor filantrópico, por exemplo, pode ser melhor entendido desta forma. Os estóicos gregos acreditavam que mesmo o amor erótico podia ser repensado de uma forma que o tornasse compatível com a apatheia, impassibilidade, própria dos doutos. Seria um entusiasmo activo acerca do bem-estar do objecto, sem as correntes da passividade angustiante que habitualmente caracteriza a ligação erótica.

2. Tipos de amor

O inglês, como o latim, tem apenas um único vocábulo para uma extensa família de experiências diferentes. Outras línguas, como o grego antigo e o japonês moderno, tornam as diferenças inequívocas desde o início através do uso de vocábulos diferentes. Mas, mesmo em inglês e latim, podemos distinguir diferentes espécies de amor. O amor erótico-romântico está estreitamente ligado ao desejo sexual, enquanto o amor da amizade aparentemente não está. Considera-se frequentemente na era moderna que o amor dos pais pelos filhos e dos filhos pelos pais tem uma dimensão erótica; mas esta não era a perspectiva da maioria das culturas mais primitivas, nem é verosímil ser verdadeira em culturas onde os pais em boa situação financeira raramente viam os seus filhos. A cultura grega antiga considerou que o eros era sexual, preocupado com a posse e potencialmente destrutivo; a philia, que podia prevalecer quer entre amigos quer entre parentes, era vista como mútua e recíproca, preocupada com o bem-estar, e uma força cultural positiva. A agape cristã é distinta de ambos estes amores pelo seu carácter essencialmente altruísta; o seu paradigma é a dádiva que Cristo fez da sua vida para a redenção da humanidade pecadora.

Podemos também classificar os amores pelo seu tipo de objecto. Nós amamos outras pessoas, e é razoável esperar que estes amores envolverão alguma reciprocidade e mutualidade. Os amores das pessoas pelos animais podem ser muito intensos; variam muito no tipo de reciprocidade que oferecem. As pessoas também amam intensamente objectos inanimados, como obras de arte e beleza natural. Tais amores não podem ser recíprocos. O amor também pode ter como objecto uma abstracção moral, como a justiça social ou o bem da humanidade. No modelo estóico-kantiano este tipo de amor é especialmente bem explicado, como algo que envolve um comprometimento activo mais do que uma emoção.

O amor de Deus ou dos deuses tem sido entendido de muitas formas diferentes. Os estóicos pensavam que amar Deus era amar o propósito racional que dá vida ao universo; tal amor era melhor entendido como uma forma de pensamento activo, sem qualquer receptividade emocional. O amor intellectualis dei, de Espinosa, segue este paradigma. Santo Agostinho, criticando a apatheia estóica, insistiu que uma forma de amor fortemente emocional, misturado com temor, culpa e dor, é mais apropriado a uma vida cristã. Muitos pensadores cristãos seguem a sua influência. As concepções judaicas do amor de Deus tendem a dar ênfase à acção correcta, quer ritual quer ética. O moderno pensamento religioso continua estes debates.

3. Diferença cultural

A maioria das sociedades abrange tipos e concepções de amor muito diferentes. Mas as diferenças multiculturais também complicam a análise. As sociedades diferem a) no comportamento que consideram adequado numa relação de amor; assim, os amantes americanos modernos comportam-se publicamente de formas que teriam sido inconcebíveis na Índia do séc. XIX. A diferença também está presente b) nas regras que as sociedades ensinam a respeito dos objectos de amor adequados; assim, a Atenas do séc. V a. C. ensinava aos homens jovens que se esperava que eles tivessem fortes desejos eróticos quer por homens quer por mulheres; muitas culturas modernas não transmitem esta ideia. As sociedades também diferem c) nas suas avaliações normativas das diferentes espécies do amor em si - discordando, por exemplo, sobre se o amor erótico é nobre ou indecoroso, bom ou mau. Pode-se esperar que todas estas diferenças moldem não somente os conceitos mas também a própria experiência do amor.

De uma forma mais interessante, as sociedades também diferem d) na taxinomia exacta dos tipos de amor que a sua linguagem e forma de vida exibem e perpetuam. Por exemplo, o grego antigo eros é imaginado como um terrível poder que domina a personalidade e faz que ela se fixe num objecto com uma intensidade irresistível. O seu objectivo é supostamente a posse do objecto. O amor palaciano medieval, em contraste, põe a ênfase na pureza ideal e afastamento do seu objecto e associa o amor a uma terna e cortês atenção para com esse objecto. Aqueles que, hoje em dia, perderam as crenças e as formas de vida que fundamentaram o amor palaciano não podem ter experiência daquela paixão exactamente.

As diferenças na taxinomia são muitas vezes descobertas e depois modeladas pela terminologia. Assim, o facto de os gregos antigos distinguirem o eros da philia e os romanos usarem apenas o vocábulo amor provavelmente moldou o pensamento e a experiência pelo menos até determinado ponto, embora os romanos distinguissem claramente diferentes variedades de amor (analogamente no mundo moderno, o facto de o japonês ter várias palavras distintas para aquilo que o inglês chama "amor" provavelmente revela alguma diferença real na experiência, ainda que estas diferenças não devam ser sobrestimadas). No mundo moderno, o entendimento da diferença cultural é dificultado pelo contacto intercultural e pela tradução de textos formativos: assim, o facto de o japonês ai ser usado para traduzir o bíblico agape exprime, sem dúvida, a evolução daquele conceito enquanto aplicado à experiência.

4. Amor e desenvolvimento humano

As pessoas começam a ter emoções fortes antes de poderem mover-se ou falar. A combinação da maturidade cognitiva com o desamparo físico de um bebé humano dá origem a uma complexa e ambivalente vida emocional, à medida que vê que muitos objectos de que necessita para conforto e sobrevivência são também distintos e insubmissos. A perspicaz conjectura de Espinosa acerca da relação entre amor e cólera tem, presentemente, recebido muitas vezes confirmação clínica e experimental. Uma tarefa do desenvolvimento humano é gerir e até mesmo superar esta ambivalência, a qual existirá em muitas formas diferentes em diferentes vidas, à medida que o amor é poderosamente moldado pela identidade individual dos objectos de afecto precoces.

As experiências precoces que moldam o padrão dos amores de uma pessoa são imperfeitamente recordadas, se o são de todo; mesmo traduzi-las para palavras é modificá-las. E, não obstante, parece provável que elas ensombram as experiências mais tardias de uma pessoa. Proust alvitrou de forma plausível que quando um adulto abraça um amante, ele ou ela estão, ao mesmo tempo, a abraçar a sombra de um objecto mais primitivo. Deste modo, Albertine é também a mãe cujo beijo de boa noite o rapazinho tão ansiosamente esperou. E, contudo, é difícil compreender estas facetas de si mesmo; e na medida em que se consegue fazê-lo, altera o passado tornando-o preciso e articulado. Portanto, é provável que o autoconhecimento das pessoas no amor seja muito imperfeito.

5. Amor e bem humano: a elevação do amor

O amor é geralmente reconhecido como uma fonte de beleza e apreço na vida. Por esta razão, nenhum filósofo propôs a sua completa remoção. Mas considera-se também que acarreta várias dificuldades para a pessoa que aspira a uma vida recta e virtuosa. Uma preocupação é que o amor implica parcialidade: concentrando-se intensamente no apreço de um único objecto, a pessoa perde de vista as afirmações legítimas de outros objectos e metas. A segunda preocupação é com a excessiva indigência: permitindo a um único objecto tornar-se central para a sua vida, os amantes colocam-se a si próprios à mercê de acontecimentos que não podem controlar, sacrificando, deste modo, a sua dignidade e poder. Finalmente, em parte por causa desta passividade, o amor está muitas vezes ligado à raiva e vingança, quer contra o objecto amado quer contra um rival, ou ambos. Uma sociedade que quer reduzir a raiva e a violência pode ter, portanto, razões para desencorajar o amor.

Os filósofos na tradição ocidental têm, por conseguinte, estado preocupados com o projecto de construir uma reforma ou "elevação" do amor que nos permitiria conservar o seu mistério e beleza embora depurando os seus excessos deformadores. Para Diotima, no Banquete de Platão, a elevação implica centralmente a ideia de um objecto abstracto. Desde que alguém perceba que o objecto real do seu amor não é um corpo nem mesmo uma pessoa completa, mas a beleza que está alojada naquele corpo ou pessoa, então esse alguém pode começar um processo de reforma, comparado à subida de uma escada, através do qual, afinal, chega a amar toda a beleza no universo e, mais do que isso, a contemplar a forma imortal da própria beleza em toda a sua harmonia. Desta forma, os amantes tornam-se invulneráveis às vicissitudes da vida: o objecto do seu amor nunca os trairá ou desapontará.

Os proponentes cristãos da "escada" do amor tendem a criticar o plano de Platão pelo seu objectivo de auto-suficiência pessoal. A modéstia genuína exige que se mantenha uma constante consciência da própria imperfeição e miséria. Os autores cristãos também se esforçam por manter o amor de indivíduos específicos como parte do amor purificado.

Espinosa regressou à proposta platónica para a reforma contemplativa do amor: concentrando-se na independência da mente de contingências externas, em última instância uma pessoa vem a amar a estrutura determinista do universo inteiro e a mente é libertada da passividade e ambivalência que caracterizam os afectos humanos.

Uma notável interpretação moderna da tradição platónica pode ser encontrada em À la Recherche du Temps Perdu (À Procura do Tempo Perdido) (1914-27), de Proust, que afirma que cada um dos amores de um escritor é como um degrau numa escada que o conduz a formas superiores, nas quais, sozinho, o seu intelecto encontra conforto e deleite. Usando o próprio passado de dor e vulnerabilidade como matéria-prima para um trabalho criativo, supera-se a vulnerabilidade e alcança-se uma espécie de independência do tempo e da morte.

Nenhum destes reformadores gosta muito dos seres humanos reais. Por essa razão, esta tradição dá origem a uma contratradição que tenta restituir aos seres humanos uma grande aceitação dos seus amores como eles são, vendo o próprio interesse na elevação como uma doença que necessita de cura. Muita desta tradição subsiste fora da filosofia. Um exemplo extraordinário é o Ulisses (1922), de Joyce, que divertidamente vira de pernas para o ar a escada de Diotima, sugerindo que é somente na emoção inconstante e imperfeita que o amor verdadeiro pode ser encontrado. Ao conectar o idealismo religioso ao anti-semitismo e o amor pelo corpo, de Bloom, a um amor filantrópico geral, Joyce sugere, também, que a tradição de elevação pode ser a causa dos ódios sociais, em vez de a sua cura.

Texto publicado no Portal Brasileiro da Filosofia (http://portal.filosofia.pro.br/) por Martha Nussbaum da Universidade de Chicago


26 de agosto de 2011

4.1 não é para qualquer um

"...pois estavas dominado pelo medo pueril de que um vento qualquer possa soprar sobre a alma no momento de sua saída do corpo para despertá-la, sobretudo quando, por pura coincidência, há uma brisa forte no instante de morrermos." (Sócrates - Platão - fragmento do diálogo de Fédon)


A filosofia enxerga o envelhecimento do homem, no contexto paradoxal: parece uma cabeça ligada a um corpo duplo. É o paradoxo dos contrários.
Platão mesmo em seu diálogo sobre a morte de Sócrates afirma a necessidade de viver mesmo para aqueles em que a opção de morrer era preferível.
A juventude e a velhice existem num espaço corpo-alma desde o nascimento e na filosofia do envelhecimento esse estado da alma acompanha a transcendência do ser que não é finda, mas um eterno retorno.
A juventude e a morte assumem seu pleno sentido e toda uma trajetória de vida se torna orientada por uma reflexão, uma razão e um amor para com a sabedoria.
O fim e o início, os segundos e o nada, os opostos e os contrários falam a natureza humana em sua mais alta voz, habitando o corpo com o paradoxo da juventude e da velhice, como um só sobrevoo da metáfora viva.
Parabéns pra mim, afinal, 4.1 não é para qualquer um!!!

22 de agosto de 2011

Sêneca - Sobre a brevidade da vida

Lúcio Anneo Sêneca: filósofo, dramaturgo, político e escritor foi um dos expoentes intelectuais de Roma do início da Era Cristã (4 a.C. - 65 d.C.).
Nasceu em Córdoba, Espanha e ainda jovem foi para Roma onde recebeu educação refinada e pode aprofundar-se em gramática, retórica e filosofia estóica.
Lendo o livro do título deste post pude perceber que estas cartas dirigidas a Paulino ele discorria sobre a natureza infinita da vida humana.
Desenvolveu temas como aprendizagem, amizade, livros e a morte.
Estas cartas escritas há quase dois mil anos, compõem uma leitura deliciosamente profunda e acredito que todos os homens devias ler para poder avaliar o que é uma vida plenamente de ser vivida.
Segue trecho:
"...pode haver alguma coisa mais tola, me diga, que a maneira de viver desses homens que deixam a prudência de lado? Vivem ocupados para poder viver melhor: acumulam a vida, dissipando-a. Fazem seus projetos para longo tempo, porém, esse adiamento é prejudicial para a vida, já que nos tira o dia a dia, rouba o presente comprometendo o futuro." (Sobre a brevidade da vida, Cap. IX, p.46 - Coleção L&PM Pocket, vol. 548).


16 de agosto de 2011

O mal estar na civilização (Freud, Marx e Max Weber)

Freud nota a forma do marxismo enfocando a influência das "circunstâncias econômicas" na vida dos homens que vivem em sociedade - que foi negligenciada anteriormente.
Mas o psicanalista nega, assim como Max Weber fez bem anterior a ele, a monocausalidade da análise marxista - supervalorizando os fatores da economia.
A passagem entre Freud e Marx sobre as visões do mundo (weltanschauungen) é o embate que prevalece os motivos que geraram a "falsa consciência".
Marx afirma a existência entre ilusões da consciência e ordem social e política, mas Freud "cria" a teoria que fala sobre o oposto - alinhando-se aos filósofos pré-modernos): a ilusão seria produzida por um pensamento que se julga livre quando na verdade é prisioneiro de seus afetos - pulsões, na terminologia deste.

10 de agosto de 2011

O conceito de cativar para Antoine Saint-Exupéry

Abaixo deixo o trecho do livro "O Pequeno Príncipe" que elucida este conceito:

_Quem és tu? - perguntou o principezinho. - Tu és bem bonita...
_Sou uma raposa - disse a raposa.
_Vem brincar comigo - propões ele. - Estou tão triste...
_Eu não posso brincar contigo - disse a raposa. - Não me cativaram ainda.
_Ah! Desculpa - disse o principezinho.
Mas, após refletir, acrescentou.
_Que quer dizer "cativar"?
_Tu não és daqui - disse a raposa. - O que procuras?
_Procuro os homens - disse o pequeno príncipe. - Que quer dizer "cativar"?
_Os homens - disse a raposa - tem fuzis e caçam. É assustador. Criam galinhas também. É a única coisa que fazem de interessante. Tu procura galinhas?
_Não - disse o príncipe. - Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?
_É algo quase sempre esquecido - disse a raposa. - Significa "criar laços"...
_Criar laços?
_Exatamente - disse a raposa. - Tu não és ainda para mim um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo...
_Começo a compreender - disse o pequeno príncipe.

6 de agosto de 2011

Pensamentos confusos

Que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio
Que a morte de tudo em que acredito, não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio
Que a música que ouço ao longe, seja linda ainda que tristeza
Que o homem que eu amo, seja pra sempre amado mesmo que distante
Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade
Que as palavras que eu faço, não sejam ouvidas como prece, e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas, como a única coisa que resta ao homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço, mas a outra metade é o que calo
Que essa minha vontade de ir embora se transforme na calma e na paz que eu mereço
E que essa tensão que me corrói por dentro seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que penso, mas a outra metade é um vulcão
Que o medo da solidão se afaste, e que o que convive comigo mesmo, se torne ao menos suportável
Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso que eu me lembro eternado na infância
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, a outra metade eu não sei
Que não seja preciso mas do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo, mas a outra metade é cansaço
Que a arte nos aponte uma resposta mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é platéia, e a outra metade é canção
E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor, e a outra metade...também!!!
Oswaldo Montenegro

4 de agosto de 2011

Homem somente ser de razão?

"O Homem é na realidade a imagem de um sistema fechado (...), único detentor da razão onipotente para explicar o resto do mundo." (Michel Foucault)

O que distingue o ser humano dos demais animais, é justamente a capacidade de raciocinar, de ter em suas mãos um grande poder: a razão.
Mas será que utilizando somente da Razão, o Homem se considera realizado em todos os sentidos?
É um tema questionador, que se encontra em respostas contraditórias, quer seja no campo da Filosofia ou da Religião.
Sua importância consiste em levantar a questão se somos somente seres dotados de Razão, pois sendo o homem irregular, e que não há propriedade que o transforme numa regularidade, portanto, este ser dotado de Razão faz com que esta se torne irregular também, porque se não a fosse, não seríamos irregulares e se fossemos regulares, obtínhamos um maior domínio sobre a nossa Razão, que possivelmente era o que os grandes teóricos faziam mais, que mesmo assim, não os tornavam Seres regulares.
Poderíamos então, aplicar esta inconstância à Razão.
Há um outro fator que derruba a questão da Razão, ou seja, somos também seres dotados de sentimentos e muitas vezes nos deixamos guiar por estes. Ora, a possibilidade, não poderia se encontrar neste ponto também, mas se recorrermos a esta possibilidade, não poderíamos nos classificar somente ser de Razão.
Agostinho, por sua vez, declara que a própria Razão é uma das coisas mais discutíveis do mundo, porque ela não pode mostrar-nos o caminho para a verdade, ou seja, ela é obscura em seu significado e sua origem está envolta de mistérios.
Se o Homem precisa se comunicar, se expressar e que, muitas vezes, não são atos racionais, porque atribuir a significação de ser racional?
Podemos ainda expor uma outra problemática: este ser tão racional é capaz de estudar a si mesmo se recorrendo a diversas ciências que vão tentar explicar o comportamento humano, mas sem nenhuma resposta concreta.
É esta Razão que vem por em risco a liberdade do homem em função do seu cotidiano. Uma Razão que escraviza seu próprio habitat, que confunde e não se esclarece com facilidade.
Ao meu pouco conhecimento, não caracterizo o homem como ser somente de Razão, pois, agimos, às vezes, piores que seres irracionais.
Temos atos animalescos que sempre irão ter uma explicação racional, como por exemplo, Freud ao atribuir este impulso irracional ao que ele vai chamar de ID, mas que mesmo assim, a própria Razão não poderá ter um domínio nesta situação.
Assim, um homem que se julga ser somente de razão, tem que rever todos os seus conceitos do que seja realmente esta razão, e levar em conta que não somos formados somente disto.
Quem sabe, poderíamos ter a solução de problemas, inclusive dentro da Filosofia, que parecem ser tão grandioso para a Razão e que são tão pequenos para os outros sentidos.