30 de setembro de 2011

Mais engenheiros, menos filósofos e sociólogos

Exatamente o título do post foi o que li numa reportagem (transcrita na íntegra abaixo) da Revista Veja e que fiquei indignado, mas, fazer o quê?

Segue para análise e comentário de vocês.




27/09/2011
 às 20:41

O Brasil precisa de menos sociólogos e filósofos e de mais engenheiros que se expressem com clareza

Fiz uma crítica severa à proposta de redução das aulas de língua portuguesa e matemática no ensino médio público de São Paulo em benefício das aulas de sociologia, por exemplo. A idéia de jerico é do secretário de educação, Herman Voorwald. Nessas horas, alguns bobinhos costumam dizer: “Ah, mas que mal há em debater o assunto?!” Sem essa de que tudo nesta vida é “debatível”! Algumas idéias são estúpidas “ab ovo”, como diria o meu antigo professor de latim — desde a origem. Ninguém precisa se jogar num buraco de três metros de profundidade para saber se machuca… Machuca!  O puro empirismo é a religião dos cretinos.
Mais: a tese vem embalada naquele esquerdismo preguiçoso que toma conta da educação brasileira, em qualquer nível, pouco importa o partido que esteja no poder —  com os petistas é sempre pior porque até uma dose de Gold Label que acabou de sair do freezer, acompanhada de um pedacinho de chocolate amargo (não é para se empanturrar…), é pior com eles do lado… Se os encontrarmos no céu um dia, o que é pouco provável, o céu já terá ido para o diabo… Mas volto.
Uma das misérias das nossas esquerdas é a ignorância específica, até em sua própria área de atuação. Nas “Teses sobre Feuerbach”, num de seus rasgos de obscurantismo, Marx afirmou que os filósofos, até então, haviam se dedicado a pensar o mundo; era chegada a hora de transformá-lo. A história do marxismo e dos regimes marxistas indica que aquela não era uma boa divisa. Serviu para justificar o obscurantismo da ação, desde que “revolucionária”.
Mas o matemático Marx, ora vejam!, era um homem que apostava, a seu modo, no avanço. Nunca chamou, por exemplo, o capitalismo de reacionário. Ao contrário: o sistema seria o progresso necessário a partir do qual se construiria o socialismo. Se alguém lhe dissesse que uma escola estava pensando em trocar aulas de matemática por aulas de filosofia (não dá pra falar em “sociologia” no século 19 nos termos de hoje), ele certamente se levantaria da cadeira, faria uma careta por causa dos furúnculos purulentos, e daria um pé no traseiro do infeliz.
Ele certamente diria que o mundo precisava mais de engenheiros que o transformassem do que de filósofos que o pensassem — e isso faria todo sentido, se querem saber. Idéia idêntica repetiu no livro “A Ideologia Alemã”, quando manga dos alemães na sua disputa com a França pela região da Alsácia-Lorena. Diz que os alemães, quando no domínio da região, se preocuparam menos em colonizá-la, que seria o certo, do que em espalhar a sua filosofia, que era a opção mais tola.
Os nossos esquerdistas poderiam ao menos ser marxistas, né? Embora estivessem abraçados a um erro essencial, seria ao menos um erro qualificado. Mas não! O seu horizonte máximo é essa escória petralha, que faz do proselitismo ignorante uma profissão de fé.
Acreditem! O Brasil tem uma inflação de sociólogos, filósofos, pedagogos e demagogos. O Brasil precisa de mais engenheiros, que saibam se expressar com clareza. O Brasil precisa de mais português e de mais matemática. E o secretário Herman Voorwald precisa de juízo.
Que o governador Geraldo Alckmin ponha fim a essa patuscada corporativista e obscurantista.
Por Reinaldo Azevedo


http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/o-brasil-precisa-de-menos-sociologos-e-filosofos-e-demais-engenheiros-que-se-expressem-com-clareza/

25 de setembro de 2011

O belo estético e o belo moral


O belo estético, diz respeito a um prazer de ordem superior decorrente da atividade dos sentidos e do intelecto gerada pelo objeto. 
O intelecto é afetado pelo Belo do objeto (seja ele natural ou produção humana), daí afirmar-se que temos a “fruição” do Belo. 
O agrado estético não é um gozo físico e instável. 
Segundo a tradição legada pelos antigos, o prazer estético é inseparável da medida e da contenção, virtudes impostas pelas faculdades superiores da alma.


O belo moral resulta do Belo estético, pois antecipa as qualidades morais que o homem deverá expressar em seus atos (medida e moderação). 
Para os gregos, o Belo é patrimônio das almas equilibradas que se harmonizam consigo mesmas, fugindo ao vício e mantendo-se moderadas. 
Haveria, portanto, um lado pedagógico e moral no belo estético (Paidéia) segundo os gregos. 
Para estes, o Belo é útil, pois deve preencher uma função. 
Existiria, portanto, uma relação entre o Belo e o Bem. 
O Belo estaria na exata função de cada coisa ou de cada ser, segundo os fins que a sua natureza determina realizar.

21 de setembro de 2011

Realismo - fins séc. XV

Pergunta:
Se toda a humanidade morresse (ou todos os seres pensantes do Universo) e não houvesse tempo de uma nova civilização pensante evoluir, o mundo continuaria existindo?

Resposta:
Sim, para o Realista, pois a realidade independe da nossa mente.
Não, para o Idealista, pois toda realidade é mental, segundo Berkeley.
Não faz sentido, para o Positivista, pois não pode ser respondida pela ciência por não fazer sentido.

Em primeiro lugar, podemos distinguir dois sentidos ou formas de Realismo:
1) Ontológico, onde existe uma realidade independente da mente e;
2) Epistemológico, onde além de existir, podemos apreender.

Realismo Ontológico é a tese de que existe uma realidade lá fora que é independente da nossa mente (ou de qualquer mente), de nossa observação. Por exemplo, embora não vejo a Lua ela está lá. Negar esta tese é assumir alguma forma de anti-realismo.
Realismo Epistemológico afirma que é possível, de alguma maneira, conhecer essa realidade. O problema é o "de alguma maneira". Se a gente conhece, como a gente conhece.

Outra distinção importante é aquela entre Realismo Ingênuo (ou do senso comum) e Realismo Científico.

Realismo Ingênuo é o mais simples, o do dia a dia, o mais ingênuo, a cor está no objeto, mas a cor é a relação entre objeto que reflete na retina e faz ela "aparecer" para nossa visão (ciência).
Realismo Científico é bem menos ingênuo, ou seja, ele NUNCA aceitaria que a cor de um objeto, por exemplo, pertence ao próprio objeto independentemente da nossa percepção, isso porque há muito tempo que a ciência nos mostrou que isso não é verdade. Em geral, podemos dizer que o Realismo Científico acredita que só existe aquilo que as melhores teorias cientificas dizem que existe.

Taí!!!

18 de setembro de 2011

Pandora ou a invenção da mulher


Trecho do livro O Universo, os deuses, os homens de mitos gregos contados por Jean-Pierre Vernant.

"Por que, segundo os relatos gregos, Pandora, a primeira mulher, tem espírito execrável e um temperamento de ladra? Isso tem a ver com as duas primeiras partes desse relato. Os homens já não dispõem naturalmente do trigo e do fogo como antes, sem esforço e em permanência. Agora, o trabalho faz parte de sua existência: levam uma vida difícil, apertada, precária. têm de estar sempre pensando em restrições. O camponês dá duro em sua lavoura e não colhe muita coisa. Os homens nunca dispões de um bem com fartura; portanto, precisam ser econômicos, prudentes, para não gastar mais que o necessário. Ora, essa Pandora, como todo o génos, toda a "raça" das mulheres que dela sairá, tem justamente a característica de viver insatisfeita, sempre a reivindicar, incontinente. Não se satisfaz com o pouco que existe. Quer se fartar, ter o máximo. É o que expressa o relato quando esclarece que Hermes lhe atibuiu um espírito execrável. Sua mesquinhez é de duas ordens. Primeiro, ela é mesquinha diante dos alimentos. Pandora tem um apetite feroz, não para de comer, tem que estar sempre à mesa. Talvez tenha uma vaga lembrança ou sonhe com aquela época abençoada da idade de ouro, em Mecona, onde os homens estavam sempre à mesa, sem ter mais nada a fazer. Em cada lar onde existe uma mulher, instala-se uma fome insaciável, devoradora. Nesse sentido, a situação lembra a das colmeias. De um aldo, há abelhas operárias que desde a manhã voam para os campos, pousam em todas as flores e colhem o mel que trazem para a colmeia. De outro lado, há os zangões que nunca saem de casa e que também nunca estão satisfeitos. Consomem todo o mel que as operárias colheram pacientemente lá fora. Assim também acontece nas casas das criaturas humanas, pois de um lado há os homens que suam nos campos, dão duro para abrir sulcos, vigiar e depois colher os grãos, e de outro, dentro das casas, há mulheres que, como zangões, devoram a colheita.
Não só devoram e esgotam todas as reservas, mas é essa razão principal que leva a mulher a tentar seduzir um homem. O que quer é o celeiro. Com a habilidade de seu discurso sedutor, de seu espírito mentiroso, de seus sorrisos e de sua "anca empetecada", nas palavras de Hesíodo, ela faz para o jovem solteiro suas poses de sedutora, mas na verdade está de olho na reserva de trigo. E todo homem, como Epimeteu antes dele, fica boquiaberto, maravilhado com sua aparência, e se deixa agarrar.
As mulheres não só têm esse apetite alimentício que arruína a saúde do marido, porque ele nunca traz comida suficiente para casa, mas além disso têm um apetite sexual particulamente devorador. 
As mulheres, mesmo as melhores, as que possuem um temperamento comedido, têm a característica de, segundo contam os gregos, terem sido fabricadas com argila e água. Por isso, seu temperamento pertence ao universo úmido, ao passo que os homens têm temperamento mais próximo do seco, do quente, do fogo.
Em certas estações do ano, especialmente na que se chama canícula - a estação do cão, ou seja, quando Sírio, o Cão, é visível no céu, bem pertinho da Terra, pois o Sol e a Terra estão em conjunção -. quando faz um calor terrível, os homens, secos como são, esgotam-se e enfraquecem. As mulheres, ao contrário, graças à sua umidade, desabrocham. Exigem dos esposos uma assiduidade matrimonial que os deixa exauridos.
Pandora é um fogo que Zeus introduziu nas casas e que queima os homens sem que seja preciso acender qualquer chama."

10 de setembro de 2011

Filosofia Clínica a partir de Protágoras e Schopenhauer

O ponto de partida da análise de um filósofo clínico se baseia na afirmação de Protágoras[1] que diz que “O homem é a medida de todas as coisas, das que são pelo que são, e das que não são pelo que não são” (Sexto Empírico, Adv. Math, VII, 60) e a complementação na afirmação de Schopenhauer[2] que nos diz:


O mundo é minha representação. –Esta proposição é uma verdade para todo ser vivo e pensante, embora só no homem chegue a transformar-se em conhecimento abstrato e refletido. A partir do momento em que é capaz de o levar  a este estado, pode dizer-se que nasceu nele o espírito filosófico. Possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra, mas apenas olhos que veem este sol, mãos que tocam esta terra; em uma palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação (...). (Arthur Schopenhauer, 2001, p.9, § 1)

Alguns estudiosos interpretaram o pensamento de Protágoras como se ele falasse não ao homem individual, mas ao homem na coletividade.
O homem que Protágoras se refere é exatamente o indivíduo singular e isto é confirmado por Aristóteles em “... e por isso Protágoras só admite o que aparece aos indivíduos singulares, e assim introduz o princípio da relatividade.” (Aristóteles, Metafísica, K 6, 1602 13ss) e no trecho abaixo de Platão:
E não quer dizer com isso que, tal como as coisas individuais me aparecem, tais são para mim, e tais a ti, tais para ti, porque és homem como eu sou homem? (...) mas não acontece às vezes que, soprando o mesmo vento, um de nós sente frio e o outro não? E um sente pouquíssimo, e o outro muito? (...) E então, como chamaremos este vento: frio ou não-frio? Ou deveremos acreditar em Protágoras, que para quem sente frio é frio, para quem não sente, não é? (Platão, Teeteto, 151 e 152 a)


[1] Protágoras (491 e 481 a.C.) foi o maior e mais famoso dos sofistas que nasceu em Abdera.
[2] Arthur Schopenhauer (1788-1860) foi filósofo alemão que desenvolveu uma filosofia pessoal, considerada pessimista e cética.

Bibliografias deste capítulo:
SCHOPENHAUER, Arthur. O mundo como vontade e representação. Editora Contraponto, Rio de Janeiro, 2001.
REALE, Giovanni. História da filosofia antiga. Volume I. 5ª ed. Loyola, São Paulo, 1993.

Mais um trecho de meu TCC (Filosofia Clínica - Um instrumental em sala de aula)