27 de dezembro de 2011

A arte como um não fazer - Ferreira Gullar

Saiu na Folha neste domingo (25.12.2011) e abaixo transcrevo o texto, muito bom por sinal.
Espero que gostem, pois eu adorei (indicação de meu professor de Estética - Sidnei Vares - UNIFAI)


A arte como um não fazer

O artista conceitual, se usa objetos, usa-os pelo que significam em sua relação com o espaço social

Os adeptos da arte conceitual, em geral, consideram-me um inimigo irredutível desse tipo de expressão, o que não é inteiramente verdade.

Ou pelo menos, não adoto uma atitude meramente negativa; antes, procuro entender o que ocorreu, o que gerou esse tipo de manifestação. E esse pode ser o caminho, se não para aceitá-la, pelo menos para compreendê-la e situá-la.

E nisso espero que o leitor me acompanhe porque, se não me engano, a maioria, como eu, questiona esse tipo de arte.

O que se chama de arte conceitual eliminou a pintura. Eliminou também a escultura, mas, como lida com objetos, tem alguma coisa de escultura em suas instalações.

Mas só aparentemente, porque o escultor, seja ele figurativo ou abstrato, valha-se ele do volume ou da placa, trabalha sobre a superfície e o espaço, buscando transfigurá-los.

Já o artista conceitual não; se usa objetos -cadeiras e mesas, manequins de gesso ou o que for- usa-os pelo que significam em sua relação com o espaço social; enfim, pelo que significam como coisas do nosso dia a dia. Valem-se dessa situação normal para violentá-la e chocar o espectador. Um exemplo é quando põem cadeiras e mesas, uma sobre as outras, num equilíbrio instável, criando uma relação inesperada entre esses objetos e o espectador.

Esse tipo de expressão tem origem no dadaísmo, que, por sua vez, inspirou-se, de um lado nas colagens cubistas: envelopes de cartas e recortes de jornal -elementos "ready-made"- colados na tela, e de outro, na frase de Lautréamont: "O encontro fortuito de uma máquina de costura e um guarda-chuva sobre uma mesa de necrotério".

É que o objeto comum, posto em situação inusitada, revela a expressão de sua forma, até então oculta pelo hábito.

Isso se aplica perfeitamente ao urinol que Duchamp enviou para a Exposição dos Independentes, em 1917, uma vez que, posto na situação de obra de arte, o objeto perde a funcionalidade para revelar-se como pura forma. Neste caso, ao escolher um urinol, e não outro objeto, Duchamp manifesta seu desprezo pelo que se considerava arte, uma atitude bem dadaísta.

Mas há outro componente implícito no nascimento desse primeiro "ready-made", já mencionado por mim aqui, e que foi a sua visita a uma exposição de indústria naval, em Paris, quando se deparou com uma enorme hélice de navio, que lhe pareceu uma escultura.

Era uma obra de arte criada pela indústria sem o propósito de criar arte -um "ready-made". Esse fato compõe o quadro histórico em que se dá grande mudança dos valores artísticos no começo do século 20: trata-se de uma época em que a produção industrial toma conta da sociedade. Isso, de certo modo, agrava a crise da pintura, que é essencialmente não industrial, artesanal.

Mas nem todos os artistas daquela época viam as coisas do mesmo modo que Duchamp. Mesmo um dadaísta como Hans Arp, ainda que tendo abandonado a linguagem usual da pintura e da escultura, manteve-se fiel à essência delas, criando obras não obstante inovadoras. A verdade é que as artes artesanais se mantiveram e se mantêm até hoje.

O próprio Duchamp, como já observei anteriormente, não abriu mão da realização artesanal, quando realiza, entre 1915 e 1923, "O Grande Vidro" e, depois, dedica os últimos 20 anos de sua vida à realização de "Étant Donné".

Outro artista desse mesmo grupo que se mantém durante alguns anos realizando obras artesanais é Kurt Schwitters, com suas colagens a que deu o nome de arte Merz.

Mais tarde, inventou o "Merzbau", uma antecipação das atuais instalações, ainda que essencialmente diferente, uma vez que se trata de uma obra sem fim, feita ao sabor do acaso: saía para trabalhar e, se encontrava alguma coisa que a seu ver cabia na obra, a trazia para casa e a inseria nela.

Como uma espécie de árvore, o "Merzbau" crescia a cada novo achado, a ponto de ter invadido o andar de cima da casa. Como teve que deixar a Alemanha, perseguido pelos nazistas, retomou a realização do "Merzbau" em Londres e nele trabalhou até morrer.

Como se vê, trata-se de uma experiência muito distinta das instalações feitas atualmente, que, como o próprio nome indica, pretendem emitir conceitos, a exemplo da arte engajada que sobrepõe a mensagem à elaboração estética.

AMANHÃ NA ILUSTRADA: Luiz Felipe Pondé

25 de dezembro de 2011

O valor supremo da generosidade como virtude do agente histórico


Citando um texto de Mauss, ele aponta “como o Dom é a conseqüência da possessão pela alma”:

a obrigação de doar é a essência do potlach. Um chefe deve doar os potlach para si mesmo, para  seu  genro,  para  sua  filha,  para  seu  filho,  para  seus  mortos.  Ele só conserva sua  autoridade  sobre  sua  tribo,  sobre  sua  aldeia,  sobre  sua  família,  só mantém sua categoria entre os outros chefes – nacionalmente e internacionalmente – se ele provar que é assombrado e favorecido pelos espíritos e pela fortuna; que ele é possuído  por  ela  e  que  ele  a  possui;  e  ele  só  pode  provar  essa  fortuna,  se  ele despendê-la,  distribuí-la,  humilhando  os  outros,  ao  colocá-los  ‘à  sombra  de  seu nome’  ...  porque  no  Noroeste  americano,  perder  o  prestígio  é  perder  a  alma:  é realmente a ‘face’, é a máscara da dança, o direito de encarnar um espírito, de portar um brasão, um totem, é realmente a persona que são assim colocadas em jogo, que se  perde  no  potlach,  no  jogo  dos  dons,  como  se  pode  perdê-los  na  guerra  ou  por  uma  falta  ritual.  (Mauss:  Essai  sur  Don,  forme  archaïque  de  l’échange.  Année Sociologique 1923-24, p. 100 à 102).  (Ibidem, p. 387).

No desenvolvimento de sua pesquisa, ele observa que a sustentação ontológica dessa prática está diretamente ligada à consciência em sua gratuidade e, para apreender melhor essa questão,ele  retorna  ao  plano  individual  procurando  nas  raízes  de  sua  ontologia fenomenológica a fundamentação desse pressuposto. Em primeiro lugar, ele lembra que a gratuidade da consciência está assentada em duas condições a priori de seu ser: 1a – na necessidade de sua contingência; 2a - na consciência de não ser o seu próprio fundamento.

“A adaptação do  ser  por  si  mesmo  como  não  sendo  seu próprio fundamento acha-se no fundo de todo cogito (...). Penso, logo sou. Sou o que? Um ser que não é o seu próprio fundamento; um ser que, enquanto ser, poderia ser outro que não o que  é,  na  medida  em  que  não  explica  o  seu  ser.  É  a  intuição  primeira  de  nossa  própria contingência(....). Em nossa apreensão de nós mesmos aparecemos com caracteres de um fato injustificável” (Sartre EN, p. 115, 116)

É com esse pressuposto que, em L’Être et le néant,ele desenvolvia sua noção de contingência e  facticidade apresentando-as como as “estruturas imediatas  do  para-si”. E, como conclusão do seu  raciocínio, o filósofo  acrescentava: “O para-si é consciente de sua facticidade: tem o sentimento de sua gratuidade total, apreende-se como estando aí para nada, como sendo supérfluo(Ibidem, p.120).
Ao retomar esse tema nos Cahiers, Sartre o enriquece colocando na consciência dessa gratuidade  a  condição  de  possibilidade  de  se  alcançar  a  liberdade.  Ou melhor: só  quando  a consciência se reconhece e se aceita como necessariamente contingente e gratuita, é que ela se alcança em sua liberdade e em sua existência. “Assim - diz ele,

se  a  consciência  parar  de  lastimar  sua  estrutura  profunda,  ela  alcançará  sua necessidade  no  coração  de  sua  gratuidade.  Não é  necessário  que  ela  exista,  mas  é necessário que isto não seja necessário; não é necessário que ela tenha este ponto de vista, mas é necessário que ela tenha um ponto de vista e que este ponto de vista não seja necessário (...). A consciência alcançando a necessidade dessa gratuidade pode e deve amar esta gratuidade como condição a priori de sua existência e de salvação do seu ser (...). Em uma palavra, uma consciência é necessariamente livre e finita; livre porque é finita. A consciência alcança então em sua finitude contingente a condição necessária de sua liberdade e de sua existência (...). Minha contingência é necessária à minha  liberdade,  mas  minha  liberdade  assume  minha  contingência  (...).  Minha liberdade dá a dimensão de liberdade àquilo que era necessidade, e a contingência dá a dimensão de necessidade àquilo que era liberdade indeterminada. (Sartre, CM, p. 508).

É nesse momento que, pela primeira vez, a relação do homem com as coisas se dá independentemente da identificação e da apropriação, isto é, ela ocorre sob a mais absoluta gratuidade: aqui,“o indivíduo se perde para que o mundo exista”, possibilitando, dessa forma,  a constituição de  uma relação autêntica e verdadeira. Ressaltando a importância desse acontecimento, o filósofo observa:

É necessário, além de tudo, compreender claramente o que quer dizer ‘fazer com que haja ser’. Não é somente manifestar o Ser puro, é fazer com que o Ser puro apareça em um mundo, é colocar em relação (...). Assim, pelo Para-si, o Ser vem ao mundo. O Para-si  é a Relação. Só há relação se o Para-si for relação a si e relação ao Ser pela estrutura ontológica. (...). Conduzidos pela noção de relação que evoca a idéia de relatividade, eles [o Para-si e o Ser] só são vistos sem dúvida como dois termos unidos por uma relação, estão no seio dessa relação unidos um ao outro (...). Porque a  relação  é  precisamente  a  unidade  da  dualidade  na  unidade,  que  só  pode  vir  ao mundo  por  um  ser  que  seja  em  si  mesmo  dualidade  na  unidade  (o  que  supõe  uma negação  íntima  de  cada  termo  pelo  outro,  uma  repulsão  na  atração).  Assim  o
desvelamento  do  Ser  é  contato  de  dois  absolutos  do  qual  um  está  axialmente centrado  sobre  o  outro.  A  consciência  não  poderia  existir  sem  o  Ser  e  ela  é imediatamente  dupla  relação:  ela  é  relação  a  si  como  sendo  a  si-mesmo  o  não-ser este  ser  e  ela  é  relação  de  negação  interna  (como  não-sendo-este-ser)  com  o  Ser. Assim é pela negação interna do Ser que ela surge como absoluto, e reciprocamente o  Ser  está  absolutamente  no  mundo  porque  a  consciência  sendo  absoluto  como relação, as relações estabelecidas são relações no absoluto. (Ibidem, p. 512). 

11 de dezembro de 2011

Os três absolutos e as três visões de mundo


Quando tratamos de filosofia ou visão de mundo, temos que saber com clareza que, por mais que tratemos de diversas filosofias o que está em jogo é o conceito de Absoluto.
De acordo com a visão de Absoluto, há um reflexo na existência do individuo implicando na sua conduta, formando, assim, os conceitos: ética, homem, morte e além.
Começaremos explicando o que é o Absoluto.
Diz-se Absoluto aquilo do que é em si e por si, independentemente de qualquer outra coisa, possuindo em si mesmo sua própria razão de ser, não comportando nenhum limite e sendo considerado independentemente de toda relação com um outro.
O Absoluto é a arké, é o princípio dos princípios, é o começo dos começos, é a causa das causas, é a origem das origens, é aquilo do qual tudo depende sem ele depender de algo.
Em meio às tendências filosóficas existentes podemos considerar que há três conceitos de Absoluto: o Materialista, o Cosmo-Espiritualista e o Religioso.
Por uma tendência racionalista das universidades, a filosofia é criticada pelo fato de alguns dizerem que a religião é um exercício e atividade de fé. Quanto à razão, quem trata é a filosofia.
Os pensadores religiosos discordam dizendo que a fé não dispensa o uso e a utilidade da razão, mas precede, e de tal modo, tornando possível que o pensamento religioso parte da razão.
Para o Materialista, o Absoluto é nada mais do que a matéria onde nada existe fora dela, de tal modo que ela é o principio e o seu meio. O homem dentro de uma tendência materialista é a divindade de si mesmo, um animal que faz coisas quantitativamente superiores aos demais animais.
A ética Materialista é puramente aquilo que garante sua sobrevivência e convivência com os outros e a morte é vista, apenas, como uma porta que se fecha.
O conceito de Absoluto para os Espiritualistas Cósmicos ou Panteístas é que o todo existente é constituído de matéria e espírito, como um organismo vivo com participação no Grande Todo. O homem é, por assim dizer, um membro, uma parte da matéria cósmica e que o conceito de Deus é um cosmo inteligente e racional.
Sua ética é o caminho que o coloca em sintonia com o Grande Todo, tendo por fim a concepção de morte como o retorno ao Todo, o cosmo originário.
A morte na visão dos Espiritualistas Cósmicos é o momento em que a matéria e o espírito do ser humano se diluem no grande Espírito da Matéria; como um cubo de gelo em uma bacia com água.
Temos, por fim, o Absoluto das três Religiões reveladas (Cristianismo, Judaísmo, Islamismo), que concebe um Deus criador da qual tudo provém dEle; o Deus Pai onde o homem é a criatura e filho que utiliza a ética como o revestir-se do agir e do pensar do Pai e que com pensamentos e ações anseiam aperfeiçoar em si as semelhanças do Criador.
A morte é então o caminho ao infinito e uma porta que se abre para o paraíso.
Segundo uma afirmação feita pelas filosofias materialistas, Deus, a Religião, dentre outros, são crenças antropomórficas, ou seja, em forma de homem; o fruto da fantasia deste homem.
O homem cria Deus à sua imagem e semelhança; um Deus antropomórfico.
Contraposto a essa visão, as filosofias religiosas dizem que tudo foi criado pela Mente Divina.
O universo deve ser parecido com o que o criou; isso se considerarmos que cada agente faz coisas semelhantes a si, o universo é teomórfico, ou seja, em forma de Deus.
Qual a visão correta sobre tal tema? O homem fica imerso na dúvida.
Resolver a dúvida pela fé constitui a religião do crente, enquanto viver com dignidade esta dúvida constitui a religiosidade do agnóstico.
Podemos dizer então que o Absoluto constrói diferentes visões de mundo a partir do conceito concebido por determinada pessoa ou a determinada doutrina que essa pessoa segue, pois, cada um cria a sua visão de mundo, cada um faz a idéia do que é Absoluto e o mundo para si, sendo o menor ou o maior grau de coerência das leis, o pensar pela mente humana; só posso responder ao outro o que ocorre dentro da minha cabeça e não fora dela, ou seja, minha visão de mundo.