29 de janeiro de 2012

Antes e depois de Sócrates

Terminei ontem de ler o livro de F.M.Cornford, "Antes e depois de Sócrates" e achei incrível a forma que ele coloca o pensamento deste durante os anos que se passaram até a atualidade.
Sócrates realmente ampliou o espírito humano de tal forma que merece destaque até hoje.
A ciência ocidental apareceu no mundo como uma ciência corretamente definida, ou seja, buscava o conhecimento pelo conhecimento e não por uso prático e desta forma, podemos compreender certas características da época como:
1) o distanciamento do ser com relação ao objeto externo: solipsismo;
2) a preocupação da inteligência com as necessidades práticas da ação ao lidar com o objeto: inteligência mergulhada nos interesses da ação e;
3) a crença nos poderes invisíveis, sobrenaturais, por trás do objeto com que se tem que lidar ou dentro dele mesmo: elementos fragmentados da personalidade que residiam nas coisas.
Com isso, o nascimento da ciência na Grécia se deu pela experiência e a revelação: o natural e o sobrenatural.
O sobrenatural concebido pela mitologia simplesmente desaparece e tudo o que realmente existe é natural.

"A filosofia socrática é uma reação contra essa inclinação materialista da ciência física. Para redescobrir o mundo espiritual, a filosofia teve que desistir, por um momento, da busca da substância material na Natureza externa, e voltar os olhos para a natureza da alma humana. Foi esta revolução realizada por Sócrates, com sua injunção délfica "Conhece-te a ti mesmo." (Antes e depois de Sócrates, Editora Martins Fontes, p.26)

24 de janeiro de 2012

Teoria Aristotélica da Beleza (Ariano Suassuna)

Aristóteles abandona inteiramente o idealismo platônico, no que se refere a Beleza como em outros campos.
Segundo seu pensamento - a "filosofia natural do espírito humano" como chama Bergson - a beleza de um objeto não depende de sua maior ou menor participação numa beleza suprema, no mundo supra sensível das Essências Puras. Decorre apenas de certa harmonia, ou ordenação, existente entre as partes desse objeto entre si e em relação ao todo.
Aristóteles afirma claramente, na Retórica, que uma mulher bonita e bem proporcionada, mas pequena, pertence ao campo do Gracioso, mas não ao do Belo, que exige, entre outras coisas, grandeza.

"A Beleza, seja a de um ser vivo, seja a de qualquer coisa se componha de partes - não só deve ser essas partes ordenadas, mas também uma grandeza que obedeça certas condições." (Poética, tradução portuguesa de Eudoro de Souza, lisboa, 1951)


Aristóteles parece ter pressentido que a Beleza incluía várias outras categorias além do Belo.
De acordo com os conceitos expressos na Poética, as características essenciais da Beleza seriam a ordem, ou harmonia, assim como a grandeza. Mas, influenciado pelo conceito grego de Beleza, Aristóteles se preocupa com a medida e a proporção, e é por isso que se refere à Grandeza que obedece a "certas condições".



"O Belo consiste na gradeza e na ordem, portando um organizamo vivo pequeníssimo não poderia ser belo, pois a visão é confusa quando se olha por tempo quase imperceptível, e também não seria belo sendo enorme, porque faltaria a visão do conjunto, escapando à vista dos espectadores a unidade e a totalidade."


Essa referência  à harmonia das partes de um todo - unidade e totalidade - veio aportar na célebre fórmula dos aristotélicos. "A Beleza consiste em unidade na variedade."
Para ele, o mundo, vindo do caos, passou a ser regido por uma harmonia. Mas é como se ainda restassem vestígios da desordem anterior e, parece-nos como se o mundo e os homens estivessem sempre numa luta incessante para levar adiante a vitória incompleta da harmonia sobre o caos. Esta concepção do mundo e da vida é fundamental no pensamento aristotélico.



O conflito entre Harmonia e Desordem

Ele também admitia a desordem e a feiura como elementos aptos a estimular a criação da Beleza, através da arte.
A grande contribuição de Aristóteles para a Estética foi, primeiro, a de retirar a Beleza da esfera ideal em que a colocara Platão. Isso faz da Beleza uma propriedade do objeto, propriedade particular sua, e não recebida como por empréstimo de uma luz superior, como queria Platão.

É sabido que os pensadores antigos excluíam o Feio de suas cogitações sobre a Beleza e a Arte, considerando-o estranho ao campo estético. O Feio, encarado por Aristóteles como uma desarmonia, é então, expressamente incluído no campo estético.

20 de janeiro de 2012

A compreensão do Belo em Platão

A compreensão da beleza em Platão passa necessariamente por sua teoria das idéias, sem a qual fica difícil alocar e discorrer sobre o belo. Como afirma Ariano Suassuna, a teoria platônica da arte e da beleza está atrelada a sua visão de mundo. Como é sabido, Platão divide o universo em dois mundos: aquele é o que temos diante dos olhos, um mundo de transformações e mudanças intensas, onde nada permanece e tudo se esvai, no sentido mais típico do pantha-rei heraclitiano, o mundo da feiúra e da decadência. Este, por sua vez, é o mundo do autêntico, das idéias puras ou essências, do eterno e imutável que existe e sempre existirá, no sentido proposto por Parmênides e pela exatidão da matemática que Platão tanto admirava. O mundo das idéias no qual a verdade, a beleza e o bem são essências superiores, arquétipos imutáveis que servem de formas, modelos às coisas do mundo do sensível, este marcado pela mutabilidade, pela imperfeição. E tendo como pano de fundo esse sistema binário que Platão refletira a questão da beleza. Desde já cumpre lembrar que as alusões deste à arte não se aproximam das modernas concepções de belas-artes. Longe disso, Platão designa arte tudo aquilo que se refira a um saber-fazer, ou seja, a uma ação puramente técnica que se estende a muitas áreas como a política, a poesia, a marcenaria, a retórica, etc. Platão está longe de partilhar da mesma visão dos modernos no concernente à arte, sendo, portanto, porta-voz de uma cultura que relaciona arte e técnica, usando um conceito por outro. Platão apresenta a poesia definida como arte da imitação ou mimese.

15 de janeiro de 2012

Tudo começou na Grécia e tudo acabará na Grécia?

Muito bom o texto e compartilho com todos.
Boa leitura.


08/01/2012
Nossa civilização ocidental hoje mundializada tem sua origem histórica na Grécia do século VI antes de nossa era. Ruira o mundo do mito e da religião que era o eixo organizador da sociedade. Para pôr ordem àquele momento crítico fez-se, num lapso de pouco mais de 50 anos, uma das maiores criações intelectuais da humanidade. Surgiu a era da razão critica que se expressou pela filosofia, pela política, pela democracia, pelo teatro, pela poesia e pela estética. Figuras exponenciais foram Sócrates, Platão, Aristóteles e os sofistas que gestaram a arquitetônica do saber, subjacente ao nosso paradigma civilizacional: foi Péricles como governante à frente da democracia; foi Fídias da estética elegante; foram os grandes autores das tragédias como Sófocles, Eurípides e Ésquilo; foram os jogos olímpicos e outras manifestações culturais que não cabe aqui referir.





Esse paradigma se caracteriza pelo predomínio da razão que deixou para trás a percepção do Todo, o sentido da unidade da realidade que caracterizava os pensadores chamados pré-socráticos, os portadores do pensamento originário. Agora se introduzem os famosos dualismos: mundo-Deus, homem-natureza, razão-sensibilidade, teoria-prática. A razão criou a metafísica que na compreensão de Heidegger faz de tudo objeto e se instaura como instância de poder sobre este objeto. O ser humano deixa de se sentir parte da natureza para se confrontar com ela e submetê-la ao projeto de sua vontade.

Este paradigma ganhou sua expressão acabada mil anos depois, no século XVI, com os fundadores do paradigma moderno, Descartes, Newton, Bacon e outros. Com eles se consagrou a cosmovisão mecanicista e dualista: a natureza de um lado e o ser humano de outro de frente e encima dela como seu “mestre e dono”(Descartes) e coroa da criação em função do qual tudo existe. Elaborou-se o ideal do progresso ilimitado que supõe a dominação da natureza, no pressuposto de que esse progresso poderia caminhar infinitamente na direção do futuro. Nos últimos decênios a cobiça de acumular transformou tudo em mercadoria a ser negociada e consumida. Esquecemos que os bens e serviços da natureza são para todos e não podem ser apropriados apenas por alguns.





Depois de quatro séculos de vigência desta metafísica, quer dizer, deste modo de ser e de ver, verificamos que a natureza teve que pagar um preço alto para custear esse modelo de crescimento/desenvolvimento. Agora tocamos nos limites de sua possibilidades. A civilização técnico-científica chegou a um ponto em que ela pode por fim a si mesma, degradar profundamente a natureza, eliminar grande parte do sistema-vida e, eventualmente, erradicar a espécie humana. Seria a realização de um armgedon ecológico-social.

Tudo começou há milênios na Grécia. E agora parece terminar na Grécia, uma das primeiras vitimas do horror econômico, cujos banqueiros, para salvar seus ganhos, lançaram toda uma sociedade no desespero. Chegou à Irlanda, a Portugal, à Itália, podendo-se se estender à Espanha e à França e, quiçá, a todo o sistema mundial.
Estamos assistindo a agonia de um paradigma milenar que está, parece, encerrando sua trajetória histórica. Pode demorar ainda dezenas de anos, como um moribundo que resiste, mas o fim é previsível. Com seus recursos internos não tem condições de se reproduzir.

Temos que encontrar outro tipo de relação para com a natureza, outra forma de produzir e de consumir, desenvolvendo um sentido geral de interdependência face à comunidade de vida e de responsabilidade coletiva pelo nosso futuro comum. A não encetarmos esta conversão, ditaremos para nós mesmos o veredito de desaparecimento. Ou nos transformamos ou desapareceremos.





Faço minhas as palavras de Celso Furtado, economista-pensador:”Os homens de minha geração demonstraram que está ao alcance do engenho humano conduzir a humanidade ao suicídio. Espero que a nova geração comprove que também está ao alcance do homem abrir caminho de acesso a um mundo em que prevaleçam a compaixão, a felicidade, a beleza e a solidariedade”. Mas à condição de mudarmos de paradigma.

(Leonardo Boff é autor: Opção-Terra. A solução para a Terra não cai do céu, Record, Rio 2009)