21 de julho de 2012

Uma sociedade

Quinta-feira, 19.07.2012

Fui assistir Uma Sociedade, peça baseada no texto homônimo de Virgínia Woolf que conta a história de um grupo de oito amigos, no início do século XX.
Se passa em Londres e eles percebem que apesar de lerem muito, nenhum possui, de fato, experiências práticas sobre O QUE SEMPRE DISCUTEM e LEEM.
Decidem formar uma sociedade para sair de seu MUNDO FECHADO e CONHECER A VIDA, abdicando de algo MUITO IMPORTANTE para si como SACRIFÍCIO pelo grupo.
No entanto, este acordo os leva a resultados muito diferentes do que esperavam, e entre cobranças e desconfianças, as fragilidades de  cada um começam a emergir.
Engraçado é que, novamente, percebi como é importante VIVER PARA O OUTRO, ESTAR PARA O OUTRO, SER PARA O OUTRO e ESQUECER DE SI MESMO.
O legal e interessante é que faz com que reflitamos ainda mais sobre o CONCEITO de SOCIEDADE.
Ótima peça...

15 de julho de 2012

Educar é preciso

Entrevista interessantíssima com a pedagoga Jane Haddad para quem gosta da área da Educação.

Fonte: Revista Escola Particular - SIESP | Ano 15 - Nº 171 - Junho 2012

Pedagoga pela PUC - MG, Jane Haddad também é especialista em Psicopedagogia (UNI-BH), cursou Docência do Ensino Superior pela Newton Paiva e Formação em Psicanálise (Círculo Psicanalítico de Minas Gerais), além da Psicanálise Hospitalar (Hospital Mater Dei - MG). 

Mas sua experiência não é apenas acadêmica, Jane atuou por mais de 20 anos em escolas como professora, coordenadora pedagógica e diretora. É palestrante e conferencista em eventos educacionais no Brasil e exterior. Com o tema “O Que Quer a Escola: Novos Olhares resultam em Outras Práticas”, ela esteve no Congresso Saber do ano passado. E ela volta neste ano, para participar de uma a roda de conversa sobre os novos arranjos familiares e os desafios escolares decorrentes.

Escola Particular - Quem é o aluno contemporâneo e como lidar com ele?
Jane Haddad - É o jovem que já chega completamente conectado com o mundo. Ele recebe muita informação, porque vive na Era da Informação. Porém, muitos alunos não sabem o que fazer com o que recebem. Esse aluno contemporâneo tem uma cultura própria, que precisa ser trazida para dentro da escola. Isso não significa descer ao seu nível, mas elevá-lo ao nível da escola, pois o nosso desafio é ajudá-lo a transformar essas informações em conhecimento.



EP - Como esse aluno associa as informações que recebe?
JH - Precisamos pensar não apenas nas informações, mas na formação que ele traz de casa e considerar essa questão a partir do âmbito familiar, para depois trazê-lo ao público. Algo que me preocupa bastante é o fato de ser um aluno muito passivo. Embora se reclame muito da violência de alguns, percebo que o seu comportamento em sala de aula, em relação ao aprendizado, é de passividade: ele não fala, não se manifesta, nem argumenta. Ele se posiciona no mundo, mas se mostra apático na escola. Quando você diz para um jovem que ele tirou um zero na prova, invariavelmente, sua resposta se resume a um “aham”. Se você pergunta para ele: ‘então, você não vai ser ninguém?’ E ele dá de ombros, mostrando que não tá nem aí!

EP - Falta comunicação entre alunos e professores?
JH - É engraçado. Alguns alunos não conversam com os educadores em sala de aula, mas quando chegam da escola eles acessam as redes sociais e, ali, se conectam aos professores. E a razão dessa preferência é simples. Conectar-se pela rede é mais fácil, por não ter contato presencial. A escola deve repensar as maneiras de interação e o modo de enxergar esse aluno contemporâneo.

EP - Pode citar algum exemplo?
JH - Há vários bons exemplos. Um deles pode ser o aluno que faz um trabalho pela manhã e, quando chega a tarde, encontra o produto final postado no “face”. Isso é muito positivo quando mediado por um adulto, por promover aproximação entre alunos e professores, e destes com os familiares dos seus alunos. Mas, por outro lado, essa interatividade pode ter um péssimo uso.
Soube de uma escola que puniu o aluno porque ele não curtiu uma postagem, manifestando seu descontentamento por meio de um comentário. Isso é outra coisa a ser pensada. 
A escola deve entender qual é o objetivo das redes sociais, pois o bom uso vai aproximar, na mesma medida em que o mau uso vai separar o aluno da escola. E não posso punir um aluno porque ele se manifestou de modo contrário. Devo trazer o seu ponto de vista para uma discussão presencial, porque o ambiente virtual tem a sua importância, mas não se pode perder a essência do contato olho no olho.


EP - Há pouco tempo, nos EUA, alunos foram proibidos de ter professores entre seus amigos nas redes sociais. O que acha disso?
JH - Deve existir bom senso. Não cabe a um professor se comunicar com uma aluna às 2h da manhã! O professor não pode tratar questões de caráter pessoal com seus alunos. O ambiente virtual é um dispositivo que permite ao professor captar informações úteis sobre os alunos e serve como um auxílio para seu trabalho dentro da sala de aula. Mas quando se perde o senso de propósito dessa ferramenta, a coisa desanda. E ambos [professores e alunos] ficam expostos aos riscos que a gente já conhece.
O adulto deve lembrar que é um adulto. Ao conversar com uma menina de 10 anos, o professor deve entender o que se passa na cabeça dela. Se ele comenta o quanto ela está linda, a chance dessa menina entender que seu professor está apaixonado por ela é muito grande.

EP - E quais são os benefícios da comunicação via redes?
JH - Como falei, existe a vantagem de se abrir um canal de leitura. Por meio dele, fica mais fácil perceber o que seu aluno está te dizendo, aquilo que ele anseia. Então, o professor pode usar 
essa leitura ao trabalhar com os demais alunos, de modo presencial. Tudo o que é novo pode ser usado contra ou a nosso favor. Mas eu sou muito a favor. 
Esse é o mundo deles. O problema é que eles não refletem, mas a escola pode ajudá-los nesse sentido.

EP - E como ministrar aulas que estimulem a reflexão?
JH - Enquanto a escola trouxer coisas prontas para os alunos, não haverá motivação. Eles já estão conectados há muito tempo, bem antes de nós. 
A escola ainda está desconectada. 
E não basta que o professor use as ferramentas tecnológicas por obrigação. Igualmente, não é uma questão de banalizar a rede, mas fazer o aluno encontrar um sentido para aquilo que ele está fazendo. Caso contrário, o professor ficará para trás. Por que não colocar alunos para ajudarem os professores a lidar com as novas tecnologias? Podemos aprender muita coisa com eles. Por outro lado, eu sei uma coisa que alguns deles desconhecem: o perigo da internet. Porque isso é um vício. Uma janela abre a outra, que abre a outra, que abre a outra. Isso é uma coisa que posso ensinar a eles, assim como ensinar a administrar o tempo gasto na rede ou outros conhecimentos que lhe faltam.


EP - Mas as novas tecnologias não resolvem tudo, certo?
JH - Não se deve esquecer que também é importante ler um livro, desenvolve r ideias no papel ou ter contato com uma obra de arte. Falta muita reflexão ao jovem de hoje. As propagandas na TV são um bom exemplo disso. 
Elas trazem a seguinte mensagem : para um a pessoa s e r u m sucesso na vida, deve ser jovem ou ter alguma coisa que ainda não comprou. E qual é a reflexão que o jovem faz sobre isso? Antigamente, as moças sonhavam com um baile de debutantes quando completassem 15 anos de idade. Hoje, sonham com 300 ml de silicone.

EP - Nesse caso, não falta orientação por parte da família?
JH - Às vezes se ouve falar de família ausente. Quantos já pararam para pensar com qual família estamo s lidando? Precisamos saber qual é o perfil da minha escola. Ao marcar uma reunião de pais, preciso saber quem é a família com quem eu estou lidando. Embora tenha ido uma mãe extremamente presente, não gostava de ir às reuniões de pais, porque eu sabia que iria escutar sobre atrasos, avaliações, atividades, etc. Sinceramente, esse é um modelo que deve ser repensado. Precisamos fazer um mapeamento da família e saber aonde eles vão ou do que eles gostam, para planejar algo que venha ao encontro da família. O trabalho não deve focar apenas os alunos, mas suas famílias. 
A família que conheci lá atrás é a mesma de hoje? Porque se eu planejo uma reunião de pais tendo em vista a família que conheci lá atrás, eles continuarão ausentes.

EP - E a questão da indisciplina escolar? O déficit de atenção piora o problema?
JH - A indisciplina só existe quando há rompimento da ordem. Quando uma regra é imposta de modo arbitrário, como a proibição do uso de bonés – algo que faz parte da composição de alguns adolescentes – existe uma quebra no relacionamento entre o adolescente e a escola. E não quero dizer que sou contra ou a favor ao uso do boné. Trata-se apenas de uma reflexão. Qual a interferência do boné na aprendizagem do aluno? Se isso vai mudar a forma de mediar esse aluno, que seja uma regra. Contudo, se não há sentido na proibição, deve-se pensar num bom motivo para restringir seu uso. Precisamos aprofundar mais as reflexões e sair um pouco do modismo. A gente discute tudo, mas de modo superficial, sem se aprofundar. 
Quanto ao que alguns dizem ser déficit de atenção, quero lembrar uma cena comum aos nossos jovens. Eles falam ao celular ao mesmo tempo em que falam com você no MSN, fazem pesquisa no Google e ainda conseguem jogar no computador. Para mim, isso não representa um déficit de atenção. Eu tenho déficit de atenção em ver um a aula d e 45 minutos, o que não faz sentido nenhum para mim.

EP - Entrando no assunto do próximo Congresso Saber, você entende que falta a imposição de limites?
JH - Primeiramente, vamos pensar na falta de limites físicos. Dentro de uma casa com três filhos pode acontecer de a família ter três televisões, além do quarto aparelho, que é dos pais. Então, cada um vai para o seu quarto, que é o seu limite físico, e vê o que quer. Se todos se sentarem juntos diante da mesma TV, vai ter briga, porque não existe consenso. Um exemplo desses parece que não tem nada a ver, mas tem. Avançando nesse raciocínio, podemos analisar a maneira como os filhos entram no quarto dos pais, como eles se deitam, se levam a namorada para transar em casa, etc. É um microcosmo. Já ouvi um professor indagar a razão de um aluno comer à mesa usando boné. Não sabemos se isso é um princípio da família, mas alguns vão dizer que isso acontece porque a família não impõe limites.

EP - Para você, o que é impor limite?
JH - Entendo ser a fronteira entre o pode e não pode; entre o público e o privado. Alguns dizem que essa geração não tem limites. Será que a nossa geração tem? Basta andar por um aeroporto para ver pessoas da nossa geração falando ao celular quando não podem, ocupando três assentos enquanto há pessoas de pé, ou ocupando uma vaga de deficiente. Elas também não têm limites. Será que isso não tem a ver com a educação? 
Concordo que a geração atual não tem certos limites, mas eles são frutos de uma geração cheia de culpas. São pais que passam o dia inteiro fora e entendem ser necessário dar tudo o que os filhos querem para ser feliz. O grande desafio é encontrar um ponto de equilíbrio. Venho de uma geração em que nada podia. Lá atrás, não podia manifestar meu pensamento livremente. Hoje, porém, o jovem pode se manifestar, mas não tem um projeto de vida. Lá atrás, quando alguém dizia um não para um adolescente, ele decidia adiar um prazer ou uma satisfação. 
A partir desse não que ele recebia, surgiam desejos e expectativas; e isso levava à criação de um projeto. Eu não vejo isso no jovem de hoje.
EP - O jovem não sonha? 
JH - Sonha. Porém, somente para o hoje. Já ouvi alguns jovens dizerem que seu sonho é ser um Big Brother. Em uma formatura, um jovem de 24 anos disse que o amanhã não existe e o importante é viver intensamente o dia de hoje.

EP - Faltam bons modelos à juventude?
JH - Percebo que o professor não é mais a referência que costumava ser para os alunos. Eu me lembro da minha primeira professora e de quantos alunos foram influenciados de modo positivo pelos seus educadores! Nos dias de hoje, ai de um aluno se ele disser que quer ser um professor. O próprio educador é o primeiro a repreendê-lo, ao perguntar: “Você tá louco? Quer levar a vida que eu levo?”. E eu te pergunto, quem é que passa o maior tempo com o aluno? É o professor. Mas existe uma luz.

EP -E qual é?
JH - A saída é participar de eventos como o [Congresso] Saber, em que você encontra especialistas de várias áreas, formulando novas questões. É o que falei na minha palestra: quanto menos resposta , melhor ! 
Precisamos de novas perguntas, novos questionamentos. Alguns dizem que a família está ausente. Tudo bem, mas as respostas para isso eu já sei. Aquilo que eu ainda não sei, porém, é a resposta que devo buscar. Isso só acontece quando se formulam novas perguntas. Podemos perguntar, no caso da família, com quem estamos lidando. Precisamos de mais perguntas, mais reflexões e menos receitinhas. Mas não temos as respostas hoje. E quem diz ter as respostas está equivocado. As pesquisas que são feitas, as estatísticas apresentadas e os dados apurados nos ajudam a chegar perto, mas não temos tantas respostas como se propaga por aí. O Congresso Saber é uma oportunidade. São dezenas de atividades para beneficiar o educador. 
Eu venho ao Saber para que também possa aproveitar essa oportunidade única de conhecer mais.

EP - Pena que nem todos vejam dessa forma!
JH - O professor ainda não se deu conta do seu importante papel. Ele não acredita e não se vê como um agente de transformação da sociedade, embora esteja mais tempo com nossas crianças e adolescentes do que os próprios pais. 
Vivemos a angústia da escolha. Antes, o professor não podia mudar de profissão. Hoje pode. Costumo dizer aos insatisfeitos: muda! É um duro e pesado convite, mas é verdadeiro. Em primeiro lugar, alguns professores devem mudar de profissão para darem a si mesmos uma chance de ser feliz. 
Além disso, devem dar uma oportunidade aos seus alunos. Ninguém merece acordar todos os dias pensando que tem de ir para “aquela escola”, para dar “aquela aula”! E se o professor vai assim para a escola, coitado do seu aluno.

EP - Como está a formação dos nossos jovens? Há enfoque nos futuros cidadãos ou em preparar pessoas para o mercado de trabalho?
JH - O mercado de trabalho é muito vasto, mas está cheio de pessoa s extremamente competentes desempregadas. Isso acontece porque, diante do primeiro conflito no trabalho, elas pedem demissão. Há adolescentes que saem alardeando que o mercado está ruim. O problema é que alguns deles trabalham apenas três meses num lugar; e depois de ter um problema com o chefe ou outra pessoa, simplesmente pedem a demissão. São jovens despreparados para o mercado e para a vida.
Conheci excelentes alunos que, na hora de fazer a prova numa federal, não conseguem um bom desempenho. Eles travam. E há aqueles que se dão muito bem no mercado de trabalho, mas veem tudo como uma competição. Para estes, o outro não importa. Sua única preocupação é atingir o objetivo.
Como falar de cidadania em um projeto pedagógico quando há professores que fomentam esse comportamento? Já vi professores do Ensino Médio afirmarem para os alunos, o tempo todo, que embora sejam amigos, seus companheiros de sala são seus concorrentes no vestibular. Será essa a concepção de formação para o mercado que nós buscamos? Todos os dias, vemos quem queira derrubar o outro, ou quem deseje aparecer por causa do fracasso do outro, etc. A escola tem contribuído um pouco com esse espírito de competição, que não é saudável.

EP - A escola é culpada, então?
JH - No dia da tragédia em Realengo, quando a mídia só falava nisso, eu chorei por pensar em qual momento eu poderia ter fechado meus olhos. 
Não que eu tivesse algum sentimento de culpa, mas porque eu também sou uma educadora. E a situação que antecedeu essa tragédia se repete há vários anos em muitas de nossas escolas.
Não estou buscando culpados. Não é isso. E concordo que o ocorrido em Realengo envolve um caso patológico. 
Porém, aquele rapaz [Wellington] passou pela escola. Será que ninguém viu? Ninguém percebeu os sinais de comportamento? O que eu poderia ter feito por ele, como professora? Casos como esse devem servir à reflexão. Não como a mídia faz: massacrando num primeiro momento, para abandonar o assunto depois que perde o interesse. 
O conflito é o tipo de situação que precisa ser contemplada na escola, com discussão em sala de aula.