29 de março de 2014

“O HOMEM AO LADO”: TEMAS IMPORTANTES A DESTACAR

Vários aspectos psicanalíticos e psicológicos são detectados no filme “O Homem ao Lado” e podemos destacar entre eles o refinado e o brega, a civilidade e a barbárie, o observar o outro, a ferida do narcisismo, a questão da lei no país, a falta de diálogo em família, a rejeição do outro, a questão da privacidade, a caricatura do deboche, o problema ser o outro
Tantos aspectos que a lista se estenderia por todas estas linhas, mas gostaria de destacar alguns pontos que me chamaram atenção e a qual dei um valor maior: a questão do narcisismo, a questão do “quem olha quem” no sentido de vigiar, a questão do problema ser sempre o outro e nunca nós mesmos e a questão da privacidade.[1]
Em psicanálise, Freud nos diz que o estudo do narcisismo se dá no quesito da grandeza e da valorização, ou seja, o narcisista só existe se é valorizado ou se tem uma grandeza que o outro lhe atribui.
A experiência narcisista é a partir de si tendo outra pessoa por trás disso tudo que o valoriza ou o engrandece e, com isso, lhe dá importância na construção de sua subjetividade.
Assim como Freud nos deixou a preciosa proposição de que “o narcisismos não seria uma perversão, mas o complemento libidinal do egoísmo do instinto de autoconservação, do qual justificadamente atribuímos uma porção a cada ser vivo”[2], o personagem principal do filme, Leonardo, é o típico narcisista que precisa afirmar o tempo todo que é o melhor no que faz sendo uma das características do narcisista exatamente esta: um retorno ao ego depois da retirada dos investimentos do objeto.

O interessante deste filme também é que Leonardo abre as portas de seu lar para todos visitarem devida a arquitetura ser de uma contemplação infinita, mas, o vizinho é proibido de “espiar” da janela que fez a casa de Leonardo. Mesmo lhe incomoda toda vez que o vizinho adentra a sua casa. Todos podem visitar, mas o vizinho não. Daí uma questão bem interessante entre o valor que se sente que tem versus a pessoa que acha que tem este valor.
Sendo assim, por mais simples que possamos parecer de um lado (consciente), o escuro nos perturba com forças violentas e ruídos temerosos (inconsciente).
Vamos a outro ponto: o segundo personagem, Victor, o vizinho, que tem um ar rústico onde incomoda generalizadamente Leonardo e o coloca em segundo plano, pois Victor passa por cima de tudo que Leonardo pede ou solicita e impõem sua vontade não cedendo a argumentos e o deixando em situação incômoda inclusive com sua esposa, Ana.
Victor se apropria da casa ao lado da casa de Leonardo e, com isso, abala o mundo que este vive, pois ali ele era soberano: designer inteligente, bem sucedido, bonito, mora na única casa construída pelo famoso arquiteto Le Corbusier, mas ao mesmo tempo temeroso sob alguns aspectos. Um deles é ter que se afirmar o tempo todo como se fosse perder algo caso isso não ocorresse, outro é que a mulher praticamente dita ordens em casa.
A relação dos dois homens é o que Freud diz como falar daquilo que o neurótico tem recalcado em seu inconsciente          o que o perverso faz surgir em ato.
Leonardo tenta ao longo do filme solucionar o “conflito” da abertura de uma janela na casa do vizinho que está de frente para sua casa versus o mal estar causado em olhar para dentro de sua casa.
Uma analogia que bem observei nesta parte do filme: invasão de privacidade na sua intimidade, exposição incômoda e intolerável. É difícil olhar para dentro de si sem se assustar com seus medos e “monstros”.
O engraçado em tudo isso é que além de ser observado, o casal (Leonardo e Ana) também passa a olhar o vizinho, só que escondido, como se fosse natural ou permitido somente eles olharem, o vizinho não: esse é o lado obscuro. A destrutividade, a hostilidade e uma porção de sentimentos nada nobres (desdobramentos da pulsão de morte) é que esse homem só pensa em si mesmo e nos seus próprios interesses; é sempre o outro e esse outro é o que faz barulho e sujeira (marteladas na parede para fazer o buraco da janela e todo o material caindo por terra), que invade a privacidade, que desrespeita as leis que regem os relacionamentos, que é grosseiro e sem consideração.
A Filosofia de Hobbes nos afirma que “o homem é o lobo do homem”, ou seja, não é de fácil acesso renunciar a uma agressão de outro ser humano sem revidar, caso ele lhe agrida de forma que você não tenha gostado seja por qual maneira for.
Por fim, descobrimos que o homem ao lado nada mais é do que aquele que afirma o tempo todo a sua existência, aquele que amedrontado por um “fantasma” coloca a culpa ou o motivo do seu querer no outro, aquele que não sabe ser rejeitado e o que não assume que ele não quer a “janela”.


[1] Minha formação é em Filosofia. Destaquei mais de um ponto do filme e relacionei com a disciplina e as explanações dadas em sala de aula para verificar se meu saber atingiu o conteúdo esperado.
[2] FREUD, Sigmund. Obras completas – Vol. XXII. São Paulo: Cia das Letras, 2010, p. 14.