17 de setembro de 2015

UMA ANÁLISE DA PERVERSÃO NO FILME "CENTOPEIA HUMANA 2" SOB A ÓTICA DA TEORIA FREUDIANA

Dia chuvoso e estacionamento não muito cheio.
Vigia terminando de assistir o primeiro filme, “Centopeia Humana”, onde na última cena mostra a única sobrevivente.
Aguarda com olhar fixo na tela do notebook até iniciar os créditos, passa o dedo indicador no lábio inferior, faz cara de paisagem meio pensativo e após alguns segundos olha para o monitor ao lado do notebook checando se tudo está “ok”.
Depara-se com um casal indo para frente de um carro estacionado e quando chegam lá começa uma pequena discussão.
Quem inicia é o homem, porém, a transmissão não tem áudio e o vigia do estacionamento decide ir até o local verificar o que ocorre.
Pega um pé de cabra, levanta calmamente, caminha até o casal e fica observando a discussão quando o homem vira e começa a agredi-lo verbalmente muito nervoso e alterado porque trancou o carro com a chave dentro e descontava a raiva na namorada dizendo que se o pai chegasse e visse o carro fora de casa ficaria muito bravo.
Depois em palavrões dirige-se ao vigia quando este sorri e lhe dá um tiro no pé, vira-se e dá dois tiros em cada coxa da namorada e com o pé de cabra finaliza o serviço deixando ambos inconscientes no chão com uma pancada certeira na cabeça.
Aguarda um tempo, olha para os lados a procura de alguém, busca uma Fiorino e coloca ambos cuidadosamente na caçamba onde já tem uma pessoa inconsciente.
Volta para seu posto e começa a assistir o mesmo filme novamente.
É com esta pequena introdução sobre o filme “Centopeia Humana 2” que inicio este trabalho para dialogar sobre a perversão na teoria psicanalítica de Freud e o filme onde um homem se torna sexualmente fissurado pela centopeia humana e decide fazer um trabalho parecido com o trabalho que o médico do primeiro filme desenvolveu.
Sua perversão não é pequena e, ao contrário do primeiro filme onde um médico alemão aposentado tenta tornar trigêmeos siameses ligados pelo sistema gástrico num filme de ficção, este humilde vigia de um estacionamento em Londres decide unir doze pessoas só que na vida real.
Resolvi realizar o trabalho sobre a perversão para tentar entender um pouco mais através do que venho lendo e discutindo com os colegas da sala, o motivo de alguns seres humanos gostarem tanto do grotesco. 
Por que somos atraídos pelo que nos causa repulsa?
A mente perversa do homem é mostrada claramente nesta segunda parte do filme, pois o personagem principal tem sérios problemas com a sua mãe que por sua vez é abusiva demais e até tenta mata-.
Além disso, tem problemas com obesidade, asma e é tratado por um médico que parece ter uma queda por ele.
Tudo conspira a favor para que ele se perca no mundo de fantasia do filme e comece a desenvolver uma admiração pelo personagem do médico obsessivo.
Envolvido na demência da ficção, Martin tem ideias ainda mais insanas que as criadas no primeiro filme e está disposto a torná-las reais: criar uma centopeia humana com doze pessoas, sendo uma delas a protagonista do primeiro filme ao qual ele tem uma forte paixão e sexualidade aguçada.
Na realidade o personagem, Martin, é obcecado sexualmente pelo filme e isso faz com quem possamos qualifica-lo como perverso já que segundo consta no vocabulário de psicanálise de Laplanche e Pontalis seria difícil apontar a noção de perversão sem ser em referencia a uma norma e bem antes de Freud o termo foi usado para designar apenas desvios do instinto que o define como um comportamento pré-formado, próprio de determinada espécie e relativamente invariável quanto à sua realização e ao seu objeto (LAPLANCHE e PONTALIS, Vocabulário de psicanálise, p. 432).



Frequentemente ouço uma associação entre perversão e perversidade e fui me aprofundando no assunto ao ponto de pesquisar e descobrir que a origem deixa margens para essa associação. O verbo é derivado do latino pervertere com a possível tradução de “por de lado” ou “pôr-se a parte”. Já no dicionário Aurélio consta como o “ato ou efeito de perverter (-se)”; “corrupção”, “depravação”, “desvio da normalidade de instinto ou de julgamento”, e “devido a distúrbio psíquico”.
Acredito que estas traduções fazem jus a um caráter mais moral ou ético e que a real profundidade do assunto é ignorada: desvio sexual num sentido mais impregnado de pré-conceitos.
Freud nos deu uma compreensão pela primeira vez sobre o assunto da perversão em sua obra “Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” de 1905 quando nos disse que “as perversões não são bestialidades nem degenerações no sentido patético dessas palavras”, mas “são o desenvolvimento de germes contidos, em sua totalidade, na disposição sexual indiferenciada da criança, e cuja supressão ou redirecionamento para objetivos assexuais mais elevados destina-se a fornecer a energia para um grande número de nossas realizações culturais” (FREUD, 1905, p. 32).
Essa fixação permanente em assistir ao mesmo filme diversas vezes e a “fuga” de casa para criar uma centopeia humana, deu a Martin, vigia do estacionamento, o desvio necessário para se alienar do que estava acontecendo à sua volta e se dedicar inteiramente a relação do objeto. Sendo assim, por diversos motivos as pulsões sexuais podem conduzir a desvios como as neuroses, as psicoses e as perversões.
Mais especificamente, no que abrange o aparelho psíquico do perverso, surge uma nova formatação, diferente dos neuróticos e psicóticos: o ego negocia suas exigências com os desejos do id e com a realidade e assim os perversos colocam em prática aquilo que os neuróticos não têm coragem de colocar. Os neuróticos reprimem e recalcam muitos dos atos característicos dos perversos. Na perversão é possível considerar as exigências do id e as da realidade sem que uma anule ou chegue a interferir a outra.
Podemos ainda explanar que a estrutura da personalidade perversa inicia-se na infância, pois a criança é um sujeito sexual que constantemente vai se experimentando e se descobrindo. A partir desse ponto, experimentar e descobrir, é que podemos encontrar a distinção entre ser perverso e ser normal e o  perverso sabe o que quer, sabe qual o foco do desejo que busca, só que nega a raiz de onde se originou e considerando a realidade com este tempo de negação, substitui-a pelo próprio desejo: fixação do desvio quanto ao objeto desejado e exclusividade de sua prática.
Haja vista que alguns conceitos sobre perversão passaram por desconcertos impregnados de doses moralistas, podemos considerar a perversão como um conjunto de comportamentos psicossexuais que buscam de alguma forma um prazer de forma continuada e que cabe, então, a nós, indivíduos dentro de uma sociedade, relacionar e saber discernir o normal e o pervertido, já que o que a maioria aceita nada mais e que uma convenção social, ou seja, conforme Freud mesmo nos afirmou, somos necessariamente sexuais, transferindo, recalcando, liberando nossa libido e variando nosso objeto de interesse ao longo da vida – estando ele dentro ou não de perversões.

28 de maio de 2015

CHISTE: toda verdade atrás de uma simples brincadeira

Em 1905, na obra freudiana “Os chistes e sua relação com o inconsciente”, há uma passagem do filósofo Kant afirmando que sobre o cômico existe uma curiosa propriedade de nos poder dar a ilusão do instante.
A passagem à qual Freud informa nesta obra se refere a uma análise do que agrada às nossas sensações, produzindo contentamento e do que agrada apenas ao julgamento: ainda que o riso é um efeito, algo cuja causa deve consistir na influência da representação sobre o corpo e sua ação recíproca sobre a mente sendo que a caracterização que ele dá do riso é que é uma afecção proveniente da súbita transformação de uma expectativa tensa em nada, ou seja, através do riso, do humor ou das piadas pode-se estar ocultando uma verdade inconscientemente.
Freud dizia que o chiste evitava as restrições e abria fontes de prazer que eram inacessíveis e, desta forma, o chiste tem o cuidado de criticar tudo em poucas palavras, utilizando técnicas de abreviação, uso múltiplo de material semelhante, jogo de palavras ou duplo sentido.
No artigo “A técnica dos chistes”, Freud nos explica que o jogo dessas palavras é uma forma de condensação e o uso múltiplo de um mesmo material é um caso especial de condensação. Todas as técnicas obedecem ao principio da economia onde “economizamos na expressão da critica ou na formalização do juízo” (FREUD, 1905).
O chiste, por sua vez tem sua origem na palavra alemã Witz, (“gracejo”), é um contraste de ideias, um sentido no nonsense, um desconcerto e esclarecimento, uma válvula de escape do inconsciente, utilizado para ser dito aquilo que verdadeiramente se desejava dizer e, com isso, chego a alguns questionamentos sobre o que faz com que uma determinada brincadeira ou piada nos leve a rir; é um processo psíquico, breve e prazeroso.
Daí deixo algumas questões para vocês refletirem:
Qual a sua graça?
Qual técnica é utilizada para criar essa piada ou riso?
Qual pensamento é transmitido por essa piada?
Qual a satisfação? 
É isso que nos faz rir?

28 de fevereiro de 2015

A doença "selfie"


Minha culpa! 
Nossa culpa!
Sua cupa! 

Exatamente isso que ultimamente tenho observado nos selfies registrados por aí.
Não que eu esteja salvo dele, mas a chegar no abuso não é coisa saudável.